01/03/2013

Sonho sem terra




devia ter percorrido todas as veias do teu corpo
ter recolhido de cada uma delas
todas aquelas palavras que não dizes

mas naquelas noites
em que o tempo foi cama
num ermo envidraçado de terra húmida
as minhas mãos apenas rodopiaram na construção da tua cidade
como se pretendessem desenhar o amor

hoje os dias não conseguem explicar-me
o significado da sofreguidão
construida naquela luz de noite tão redonda

dou conta que as sílabas dos gemidos
construidas no sabor das horas
ainda habitam a minha boca leviana e cega
como se quizessem apagar o icêndio que lavra no teu corpo

...acordávamos do extase
lentos e transpirados
com as roupas espalhadas pelo chão da madrugada
e eu continuo a inventar repetições
 no cântico de remota chamada

até sei abrir a casa e a porta
e fingir que vens
há aqui objectos com o teu odor, marcando espaço
como se fossem uma possivel eternidade
sei esperar por ti
como se viesses
porque sempre sais e regressas daqui
como se te libertasse de um sonho enevoado

sei amar devagar
como se acreditasse que ainda é cedo
partilho-te assim com um silêncio sossegado
                                          acendendo velas

talvez nunca entendas o tamanho desta morte
 circundada de luz, sentido e perfume
é uma estranha tranquilidade que sai sempre de dentro dos meus olhos


gostava de poder dizer-te
que tudo está bem assim
ir ter tendo não tendo ter...todos os dias
e que até a ausência dos teus dedos
chega para me salvar
e que os momentos inventados fora d´horas
são o regozijo de uma alma a querer enaltecer
a espera no repetir o sabor do desejo

mas não...
porque acordo sempre com a boca seca sobre o arrepio
de saber que a minha loucura
não irá sempre transpirar sobre a tua pele




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