26/02/2013

Renascer



eu gostava de te poder dizer
que os gestos foram inventados
quando os deuses adormeceram ao nosso lado
e que tudo não passa
de frágeis lugares de exilio
ruinas que por si só
já faziam parte do cenário

mas não consigo
há moinhos a rodar
de um rigor nobre e implacável
a definir, a desenhar
e na calma paixão das águas
um fermento constante a levedar

o silêncio baixou sobre elas
era capaz de jurar que nem me sabes
mas é nestas manhãs de lugares diferentes
que por vezes preciso adormecer
fechar os meus braços ao afago
para depois
escolher sem sobressalto a musica perfeita
e te entregar todas as palavras
que quentes jorram dos meus olhos







(foto minha)


25/02/2013

Na cumplicidade da Lua



e de repente entrou
eu sabia que era apenas um luar
mas entrou em minha cama
e apropriou-se do teu nome

                                               meu segredo

 agora desvelada
sinto e acaricio as palavras soletradas
pla concha prateada do teu corpo






(foto minha)

Agora



instante de limpidez este
com a pedra e o musgo
a latejar numa  inocente transparência
a minha

 hoje, no castigo de um céu diluviano
 sou levada, apócrifa, a prosseguir sem remos
plos profundos sucalcos
de uma realidade claramente fria
e que outrora  incautamente aqueci
 no prelúdio alquimico dos meus silêncios

nada perguntei
nada ouvi
senti
 a gnose suprema do meu entendimento


enfolo-me, verossímil,  na vela que não detenho
tremo como num afundar de terra
e parto deste lugar tão vazio


ah se ao menos o linho dos lençois 
tivesse mesmo que por um dia
o cheiro das palavras
que vergastam  meu corpo nos temporais
se as searas ondulassem quentes
sem roubar a vida e a rima aos madrigais

eu seria nominável
 e nesta taça de beber saudade 
poderia transformar
a visão melancólica de uma busca permanente
em brisa
dando ao dia aquela sensação constante 
do supremo absoluto da aragem boreal
e
 falar-te-ia
                 de mim
                                      e do meu peito
como sentimos o toque do Verbo
quando de vestido aberto
nos suspendemos latejando lentamente
                                                 no prodigio do (a)mar 






(foto minha - Amarante)

24/02/2013

Miragem



nas margens
a terra molhada de ti
leito de luz
 eterna lua
o
 sal
na
miragem
dissolvendo o intolerável dos meus dias


uma espuma dívina
 que solta no vento
me envolve e afaga o pensamento





(foto minha)


Negra renda




nas pernas a renda
tecida de negro no fio das tuas mãos
o odor incessante da vertigem
em ousadia e réplica 

a dança do fogo
neste amanhecer 
o espiral sensual
de uma estonteante melodia


o  laivo das noites
no pulsar do sangue

a memória da  saliva quente
 pungente
em gemido incessante 



...o tempo a fermentar saudade




23/02/2013

Desaguar


(Ainda na Foz do Arelho)


o olhar rebolando
sobre os traços de prata
nos caminhos silênciosos
do eterno pó de areia

sei-me na sede da água
suspensa em latadas de espuma
verossímil e tépida

a oração
que me embala desde a foz

quando minhas mãos afagarem
as falésias solitárias da margem
e
cantarem as estrofes
do poema
escrito na nascente


então chegarei à barra

na liberdadede de desenhar
a minha própria nudez






(foto minha)

22/02/2013

O Rio a (a)Mar



(Foz do Arelho - hoje 22/02/13)


dos astros e dos teus lábios
se faz meu leito
uma ode de terra solta 
lambendo lentamente os sulcos da aragem

e nas minhas  margens
quando a noite desce ao tempo esconso das memórias 
ouvem-se os gritos das mandrágoras
o melancólico relembrar
de cada brilho do meu olhar tocado ao teu
quando
em dívinos sortilégios
as tuas mãos me dobraram p´la cintura
as tuas coxas se enlaçaram nas minhas
e a tua espada, desembainhada a fogo
foi fendendo e rasgando
 as correntes caudalosas do meu rio

 escritos gravados nos sucalcos em volúpia
um poema secreto no alento de cada madrugada

 fogo e sal na fusão de águas
uma suplica gemida na barra
imorredoura e permanente
com a saliva macia dos meus lábios
a oferecer-se na força da corrente
                                                  ao mar

o meu mar
a macerar-se poalha
no ópiacio gemido à colina da noite
                ir e vir 
     um embalo navegante
na franja humida dos corais


                 ...este desejo puro a desaguar
na arte de ser (mos) tanto e nada ser
como o mel no canto d´Afrodite
                               ou um qualquer lençol
 perfumando o estio da areia

 na barra livre e nua
quero murmurar na total ausência de palavras
que és o Mar...
               a clamação inaudita de meu corpo
                      a tempestade que me  trás da foz a ti
                     num despudor fogoso e permanente                               



o teu sal a aurir o vazio
                                         apaziguando os trilhos imprecisos
                     de uma noite só e derribada 

 





(foto minha) 

19/02/2013

O teu perfume




respiro na lembrança
um ar perfumado
 tua pele

tem afinal teu perfume o ar
a vida que entra
na lenta e doce inspiração


o ápice de volúpia envenenando o sangue
na profusão do intimo abandono






18/02/2013

Reflexos


(Amarante)


é real o céu
e não lhe chego

hoje confunde-se em mim
tudo o que há
tudo o que sinto

contemplo apenas
aquilo que não vejo

os reflexos
daquilo que desejo




 

(foto minha)

17/02/2013

No Tejo...



(Tejo)
 

a noite chega
e eu ancoro no Tejo
os meus nadas


agora vestidos de dor e melancolia




(foto minha)

Tinta e (o)dor



nas asas das gaivotas
 há um choro de vento molhado
uma solidão perniciosa
a escorrer em gotas grossas dos telhados 

aquieto a vida e ouço a água
há no meu peito um inverno solto e frio
vestido de cortante nostalgia
                                                                        e 
dos telhados tombam
 folhas...
                      os sentires

sentires que pari no silêncio luminoso da Terra
em viagens concebidas na tangibilidade do encanto
 registos de sangue e alma
                           fluídos... transparentes
                           meus poemas
                ...desenhados a tinta
nos  rios de minhas lágrimas
 em barcos de gargalhadas
                            rotas de intimidade
                                sem medo e sem tamanho
porque os Verbos foram ungidos no silêncio da magia


de meu peito de papel
                                         escorre agora uma  tinta       
                                                                 negra
                                                            contundente e fria

 e as palavras dissolvem-se
   mesmo querendo ainda redesenhar-se no vento
                                   (mas este não deixa)

escorrem à deriva 
por entre estradas alagadas na dor dos passeios
              e todas as vogais
                         todas as consoantes
                 são agora fragmentos de um nada
                          a cairem retundantes numa escuridão vazia




 
(foto minha)

15/02/2013

O sonho na noite e no dia

(Marroc)

o sonho
a prolongar-se na manhã azul

no rendilhado dos meus olhos
a tua imagem a tatuar-se com precisão a cada dia 

há almiscar no perfume que veste esta sedução
uma etérea presença envolvendo a minha

um sorriso apaixonante no bombeio do meu sangue 
e uma voz silênciosa a apaziguar esta distância


ouço-te neste murmurio de vento
 chamando por mim


e eu vou
 vou tecendo mais noites 
                                        mais rendas
                                                           mais sonhos
                                                                            mais dias
       
é meu, este teu embalo doce e quente


e aí fico  
porque minhas rendas e os meus fios de seiva quente
....rolam 
                ... serenamente no enleio de ti

há uma força mágica 
                                       a cerzir nossos sentidos




                         
 és a indelével marca dos meus sonhos

                                    a inefável brisa dos meus  dias






(foto minha)

14/02/2013

Silênciosamente

( Ksar Guilane - Sahara)





toma-me no silêncio

é como sei amar-te







(foto minha)

12/02/2013

Meu murmurio


(Istambul - Dez.2010)


trago-te comigo
no canto
dos ramos
no romance dos astros
trago-te em mim
no puro Verbo
de cada poesia
celebro-te
 na liberdade do olhar
em brisa leve e gota d´água


és a minha prece
e meu murmurio

que envio em direção ao Céu




(foto minha)


Não são necessárias palavras...



(Tejo)



os teus brilhos silênciosos
a crescerem íntimos na varanda deste rio

 
                            transcendental o enleio nesta solidão de vento

                                         e o meu corpo estremece
ousando em brisa o ensaio das águas
pra colher a magnitude dos teus olhos


há um vértice sublime e transparente
a soltar nesse brilho silêncioso
 a expressão
de todas as palavras
                                       que não precisam ser ditas 




(foto minha)

11/02/2013

Fogo


(Sahara - Ksar Guilane)

rompemos com o fogo
o limiar da diferença
sacudimos os impérios caídos
fazendo arder o dia, a noite, as horas

e é no silêncio do fogo
que revivemos a seiva líquida
 damos profusão aos odores
e desenhamos
os ciclos mágicos das colcheias prenhes de luxuria

entrega ao ritual

                                               assim

te ofereço os meus laços de cerdas viscosas
 minha água
             meu sal
 meu mel
em tributo à dádiva do supremo prazer carnal
e no meu tronco as negras rosas arqueiam o memorial
enquanto a tua boca saliva a promiscuidade de cada gomo
                                                                                       de cada pétala

 as tuas mãos vão ritualizando o fogo
na forma tépida do meu corpo
                                                          estendido
enquanto a tua boca engrossa e se rasga na minha
do teu cálice
                                      minha fonte
brota prazer e vida
dando à  minha boca 
uma luz de seiva quente
a essência nacarada de carne
somos guerreiros numa luta vestida de gritos e gemidos
com o fogo absoluto vergastando o sangue
 inundado pla loucura em modo brutal

 a manhã sobe cheia e quente 
                            cumplice na fornalha visceral


                       
e o fogo ondula agora em ritmo lento
                      na desmistificação da insolência animal
 



10/02/2013

Abraça-me!



abraça-me
antes que o meu corpo arrefeça
e os céus já não possam escutar
o arrulhar virginal das nossas bocas

abraça-me
porque é urgente tecer com saliva quente
a prata da lua
e legar aos dedos
os caminhos de fogo e da exaltação

abraça-me
antes  que os meus punhos de renda
se rasguem na adivinhação da espera
e das minhas mãos de fogo branco
rolem as carícias que guardo pra enfeitar
teu corpo
           e teu olhar

abraça-me
sabes, que sem o teu abraço
sinto  nos beirais um  peso silêncioso
e não escorre  nem mosto  nem mel  nem sal
e  até o vento  fica entorpecido
e lá naquele cais 
onde me ensinaste a partir e a chegar
homenageando a descoberta
há uma estranha serenidade
 barcos  atolados na ausência
num caos sem nome
que nem as  gaivotas ousam  sobrevoar

abraça-me
porque não quero que o desviver das embarcações
se instale no palácio construido nas rotas de ternura

abraça-me
sobrevoa com teu peito a pele do meu
devolve-me a plenitude do sorriso
porque guardei nele todos beijos que te quero dar agora
eles são a oração 
o cântico de meus lábios em prece nos teus
dá-me o fogo
dá-me abraço e corpo e alma  e tudo
antes que o farol atraiçõe
e aliene de forma contundente toda a luz 
e o caos frio do absurdo se instale na sedução

abraça-me
ata-me à foz do teu silêncio
aquele com que me envolveste 
quando no apogeu da maré misturaste teu nome no meu

abraça-me 
e retem em nós a musicalidade das linguas
que perdem o medo na caricia das palavras
e lambem na carne toda a eternidade 
aquela
que nos faz morrer de tão vivos
porque nos asfixia na pendular insanidade dos sentidos


abraça-me!



Caminhos da loucura


(Tejo - Lisboa do outro lado, ténue...)


são meus lábios o selo do gesto
e meus olhos
a habitação de um dia silêncioso e escuro


aperto na prisão das  minhas mãos 
 o gesto mendigo
de procurar nas lisas falésias os pedaços de sol
que se dissimulam impiedosos nas nuvens
impedindo-me de os olhar no céu


serei eu talvez a própria sombra do propósito
uma espuma dissoluta
ou o ténue búzio do sonho
o búzio
que outrora sussurrou na areia molhada

                                                   um poema 

o poema que declamámos jubilantes no pulpito dos corais

***
não sei!
nada sei daquilo a que chamam tempo 
pelo que serei hoje talvez sómente o eco
de mim (ou de ti)
o eco na melodia deste nada

ou talvez a página, a página molhada de uma escrita vã
                               a desfazer-se na orla verde de uma alga

                                      
                                              ...ou então


o extase camuflado
                    no odor da volúpia

em migração obstinada e cega
                           para atingir as praias da loucura
e procurar nas memórias do buzio

              o tal poema
                        
                  o poema de sorriso vagabundo
com força de mar devastador

                                  o poema que indiferente vai escondendo o gesto 
                                                                                                  e a palavra
 por entre as pedras pontiagudas
e os finos grãos de areia




                                                                               (não sei se sonho pode ser dia, ou se o dia pode ser mesmo o sonho...
                                             não sei!) 


(foto minha)


08/02/2013

Respiro-te!




respiro lúcida
esta epopeia de sentires
inalo em volúpia
as especiarias recolhidas 

estou na perfeita ignorância do devir


que me importa chegar
e esperar que a madrugada lentamente se desfaça
se é aqui no respirar-te
que ouso sentir
o condomínio privado
                                        desta vida



 

Vento na noite


"C´est moi la poursuite du vent"

Marguerite Duras (in C´est tout)



circunda-me um amanhecer
sábio e livre
tenho ainda os joelhos dobrados
pela espera da noite
onde me repito sempre tua
embarcando num sonho
de águas revoltas
onde pássaros livres
chicoteando as tempestades
dão às minhas margens
a raiz do vento

e os meus dedos cravam-se no cerrar dos olhos
viajem no adormecer
em cegueira crua
a repetir-me

a repetir-me na nudez livre do vento
pra esse lugar
onde sempre me sinto
e não estou

a  minha alma está na rejeição das coisas imperfeitas
pelo que me aporto na beira do teu leito

olho a pureza do teu adormecimento
beijo ao de leve a tua boca
e ouso assim amar-te no silêncio da magia

uma serena tempestade .
 um canto de glória
onde queimo ousadamente o meu desejo 
...nessa tua pele de fogo nua

e vou lambendo todas as cinzas
enquanto a terra vai permanecendo quieta e fria


em promiscuo enleio
                      aquietam-me  teus gemidos
sorris e eu permaneço
 cativa do respirar
desse gesto de vida
com que inspiras o ar


regresso nas manhãs
                                          ...geadas, porque o sol não quer acordar



 
tenho agora no ventre das mãos
o sabor a polpa da tua pele macia
               sinto o dia assim nesta vida

 
                                     um sentir que na noite fria da terra
                                           foi vento quente 
                                                                   e te afagou 

07/02/2013

Quase nada




 não conjugo as palavras
desapiedadas
são a rejeição absoluta do sentido

são uma amálgama de vogais e consoantes
perdidas 
sem nexo
em dor de espinho


só as linhas espectrantes do vazio têm sentido
são direção e declive



corro nua
 num frio de cansaço


condenso nos olhos o grito que não sai



 
                                                tudo é tão pouco
que hoje quero um sono profundo e sem rumo