27/01/2013

Tu na noite


(Imagem de Luis Royo)

desperta a carne ao toque
 arrepio
 vertigem
 flores de laranjeira a verter néctar
sobre o colo saturado de desejo

 hálito fervente nas pétalas macias
 fome irada

devorar

odores      sabores 
                       
alheio sentir levantando impiedosamente
 as memórias da luxuria
prazer em unidade dual
 confrontando os murmurios
na gula da nudez


 mistérios de carne quente
                                em oferta aos deuses


                                                         o ar do grito solto
                         a entorpecer o próprio respirar




Respirar a escrita



ainda não inventei
forma de te não sentir assim
 sofrega bebendo o fogo da  rima
que te habita a pele

sulco desmedidamente todos os caminhos que (d)escreves
sento-me contemplativa e demoradamente
na pontuação
dessa hábil subtileza
de quem não quer mostrar
a origem dos ventos  
que acariciam os dedos na escrita

dou-me em sentido às tuas palavras
visto-lhes a roupagem
e quaisquer que sejam as metáforas usadas
 não me conseguem apartar

habitam nelas os teus lábios de carne
um fogo de pele que sinto na caricia da minha
e que me faz ficar
no gemido silêncioso
dessa  tua  forma de respirar





25/01/2013

Despertar (en)canto




nesta minha manhã
o sopro angustiante da vida
morreu desventrado no sorriso

 seguro ainda entre os meus joelhos
um fogo secreto
 que me fez respirar a noite

* quem tiver ouvidos que ouça o seu canto




* frase de Fernando Pessoa


24/01/2013

Laço Infinito



a noite transporta-te ao laço infinito
ornamentando o sonho
numa libertação
tão transcendente e etérea
como uma partitura musical
concretizando o destino
***
sou água no movimento do embalo
sem foz, sem nascente
largada no beijo andrógino 
                                       Terra e Fogo


a Vénus de Lesbos
                 no vórtice do teu poema



(foto minha)

23/01/2013

Ridículamente ridícula



(Tela de Paula Rego)
 

rídícula, tão ridícula quanto as palavras d´amar

há em mim a zombaria dos verbos
no sangue
e
na alma

respiro-a
como quem chafurda visceralmente
uma contenda estratégica
capaz de salvar
o momento
a vida
e até a forma de morrer

tenho ridículos sentires
planeando voos abissais
 regidos por calendários sensoriais
que não têm principio nem fim
são presente
numa consentida eternidade

carne, alma
tacto, odor
 no âmago da distância
em preenchimento vazio
de
 pureza, amor, ódio, promiscuidade
raiva, serenidade, dor, tesão, podridão
o caos em osmose com a  lentidão

há um arrepio sideral
nessas noites em que aninhado em mim
és um peso ansioso e ardente contra a minha pele
uma ausência carnal
de fogo voráz a liquidificar-me a alma
 arrepio silênciado
que torna a minha língua crente e sofrega
lambendo na miragem sonetos d´amor

há inequivoco arrebatamento 
a navegar na descoberta
 vogais, especiarias e consoantes
 impregnadas desse teu odor 
                           de cânfora, jasmim e dor

e cresce um nó que aperta o sangue
garrote cerejado d´emoções
frenesim guerreiro e musical
que vem colar-se ao peito
tão forte
              e
                           tão real
rebelde, místico, doce e animal

adormeço nas manhãs curtas
vivo nos dias longos e escuros
acorrento nos gestos o pó da chuva
que me dilacera e rasga a paz
porque te olho cega

há tinta e tela nas palavras soltas
a fazer crescer
a absurda realidade no desejo
                                                                 (tão vivo)
desejo que me faz viver, morrer e renascer
na estúpidez  eloquente
de te ter não te tendo
de te amar não te amando
de te respirar
e fenecer por falta d´ar

tão tenaz esta ousadia...
                                                        tão ridículamente ridícula...




22/01/2013

Creio



caminhei tantas vezes
no vazio e na incerteza
de poder chegar ao outro lado do tédio
que me sufocava no vento e no grito da dúvida
tecia comiseração nos lábios
 e mastigava o engano da vontade

quantas vezes regressei 
 faminta
e
perdida
amarfahando nas mãos
a esperança dos amanheceres
na incredulidade, de que as noites
pudessem em algum momento
tecer mais madrugadas  iguais àquelas tais
em que no frio
tecemos ardentes vagas de calor

vagas  ondulantes
em balanço musical no apócalipse da carne
onde o bafo escorregava liquido pelos vidros
                                                               lentamente

 lembras ?
tinhamos a cumplicidade do fogo e da lua
estonteávamo-nos em néctares de audácia
e derrubávamos as paredes dos conceitos

 faziamos ferver os  poemas
 e os versos não tinham letras
tinham pele
a pele de uma promiscua métrica
que  renascia
 enquanto o fogo se destilava
no insano frémito das bocas

  
                                      todas as dúvidas destrui
                                          senti em ti a  Natureza
                                                           e essa omnipresença de mar
                                        a vaguear no meu todo
                                          em tempestade sossegada
                                                     
     inundado lés a lés está o sentir
esmagadas as conchas partidas
que enroladas no fiar do tempo
feneciam...
                                    fui devolvida em solenidade             
  aos enfeites das algas e  corais

tenho ainda gravado o atropelo do sonho
mas as veias estão quentes
 e cheias
há um sal a arder na boca
sou um coral livre
esperando na firmeza
                                 teus passos 
 que ressurgirão do mar
e se quedarão saudosos 
 nesta areia

há um porvir a dar consistência às madrugadas

 em minhas mãos há verbos e quietudes
                                            abertos ao sinal

da tua boca
fluirá o segredo
em cumplice magia
ritualizaremos a carne na noite
fiaremos com o corpo um manto ardente
                                           que me devolverá suada à madrugada





 


17/01/2013

Temporal



haviam escritos no contorno do vento
 vogais e consoantes sem nexo
vertendo no rosto o sorriso vazio

reinventei as palavras
pra sentir no limbo do vento 
o beijo da vida

mas este indiferente
 fustigou-me a pele




14/01/2013

A saída



                                  
  quantas máscaras albergas
nessa tua indumentária
que carregas em peso
na defesa
de todas as sedes que te permites calar
sucumbindo tenazmente
à tua prece de estar

somos troncos de fome e sede
colados no ventre imperfeito do mundo
esperando morrer pra concretizar

mil fantasmas circundam a mente
e o grito auto sufoca-se no silêncio
do peito descarnado de razão



sonhamos
em estadio de vigilia intemporal
sem permissão
de realização virginal

quantas vezes me sufoco em lágrimas
e me abraço imperfeita
 no desejo de chegar à morte
para assim te poder encontrar
e relembrar
 

algures...
         neste processo real




13/01/2013

Viver o fogo


há um arco iris
um pulsar sereno
as gotas d´alba a sorrirem
no ornamento das estradas de prata e mercurio
onde alegres ondas pulsam
em espumas rendilhadas de querer
                           o enfeite carismático dos dedos a abraçar

há um sopro morno e natural a brotar do peito
uma serenidade elevada a um expoente maior
o dar a conhecer à luz do dia 
os trilhos de um explendor


quando nas linhas dóceis dos corais
me permito escrever descomprometidos poemas  de amor
sei que o calor do fogo
 não precisa de conotação
são as furnas de mil prazeres em bendita erupção


e há cores  na senda da paixão
 e os passos cambaleiam na liberdade de uma profana inspiração
o torpor no tempo
a limitação dos relógios
 e
 dos pontos cardeais

 livre percurso do sonho e do sangue

 a minha boca desenha sem palavras
o gesto do beijo
para germinar o mosto
das arpas intemporais
e das cordas d´algodão

ficam quentes as albas, cumprem o alimento do corpo
e despertam os oráculos do anoitecer

há o eco do beijo na brisa e um querer
sem principio, meio ou  fim
uma  liberdade d´arco iris
a desenhar um céu
 uma montanha
e um mar

um verbo leviano e quente
conjugado no presente do amar


 não quero resistir, partir ou ficar

            quero este sentir
                                                a água de mel e sal  
                                                 o fogo letárgico deste vivênciar






11/01/2013

Molhar as palavras...


as tuas palavras estão escritas
na eloquência do fio de um sentido
têm a  luz envolvente dos caminhos da lua
por isso as guardo, qual adaga sigilosa
aqui no meu colo
em suprema cumplicidade  dos olhos e das mãos

queria na linguagem dos humanos verbos
poder dizer-te, que me entrego a elas
em simplicidade
como ao sorriso, ao amor, à carne
e aos momentos que codificam a magia
e que até mesmo nos tempos de silêncio
que por vezes são a mercê da inquietude crua
me abrigo e me entrego
descalça e nua
à luz das metáforas
que florescem nas tuas mãos

mas hoje,  há uma húmida neblina
um casulo de seda e dor
e no coração espinhos consentidos
porque as rosas permaneceram no limiar da minha boca

caminho perdida e velada
no vazio de mim, despida das palavras que guardei
há um frio cortante a vestir-me a pele
estou na distância olfactiva
um cego olhar... 
sinto uma terrivel  ausência
nestas ruas tão cheias
                                                  de Lisboa


o limite do suportável
enconcha-me
a saudade unge-me o peito
os cílios são as grades de onde não posso sair
até que as palavras tomem livres os meus lábios
e eu te possa dizer, em sopro morno
que o significado de cada palavra
está na saliva doce da tua boca
quando molha a minha

 

06/01/2013

Amo


Terror de te Amar

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.


*Sophia de Mello Breyner















não quero sequer saber
se este sentir em mim
é o que te não sei dizer
ou a transparência azul de um mar
que se não revela

estou no silêncio intocável do meu sonho
embriagada
levitando na beleza de todos os poentes
é também o abismo
onde nem me permito filosofar
para assim ir tacteando no meu corpo 
todos os subtis odores de uma fala
que rolando em actos de amor
se vestem de misticos trajes
ardendo nas veias
em perfumes de ambar e canela

nesta minha solidão
sinto os milagres 
na transmutação anil
 uma imensidão que incorpora o sonho

amo sem saber que amo
como se uma arte
 germinasse na pele
onde nada se entende e onde nada pode pertencer
não sei sequer onde se refletirá este sentir
se em espelhos suados pelas lágrimas 
se na frieza dos verbos nus
ou na plenitude do astro sol


sei que  me procuro  silênciosamente
                                                                          no que desconheço


                                                         vou amando assim
                                                  na imperceptibilidade da razão



                                                 é nesta mudez inocente e calma
 que ondulam todos os meus sentidos
          como um feitiço de mar
                                                      a reflectir o amor

                                        

 apenas porque te amo





(foto: minha)

05/01/2013

No segredo do sonho


sonhos
como  pássaros desafiando ventos
percorrem a noite
em voos tangenciais
ao mais alto dos abismos

 na textura de uma folha de papel virgem
vou escrevendo esses segredos
há neles
a mescla dos perfumes ancestrais
poderes alquimicos
 a geometria dos corpos e dos gestos
  rios de águas lisas
 em salpicos de lume

nesse somatório de horas absolutas
chove a tua voz na minha
num vaivém ininterrupto de intimidade díluvica
uma arte
no além de um acaso
e no sol nascente
uma antologia etérea
na revelação da embriaguez  do sonho absoluto

um sonho
prenhe de sal e fogo
que nos verga nus
no equinócio da água







03/01/2013

Amar-te... Mar



sou mulher de (a)mar
vivo no abraço apertado
na musicalidade da água
 no enlace azul da paixão
tenho em mim o sentir da espuma branca
em plena comunhão
 sou filha de conchas e corais
 meus  sentidos navegam
livremente no percurso das correntes
no redondo infinito
perdido na  serenidade do olhar

as aves de mim
partem
em voos dóceis
                               sobrenaturais
regressam envoltos na liberdade
em sublimes cânticos
o espirito guerreiro do (a)mar

e os ventos suaves
afagam-me a pele
 são fios dóceis de luz e caricia
 velas ardendo no sentir


sou a gota
e tenho nos lábios o brilho dos cristais do sal
mora em mim a sede
de uma arrebatada imensidão
                          plenitude
                                                        meu peito



há um sol de ouro a raiar
em simultaneidade com  uma luz ténue                  

                             o doce azul de ti
                                                    ar de vida em mim

 e
 meu sangue quente  
em ousadia
                               a bem-dizer
                                      ...o que começa aqui,  neste mar d´amar

onde sempre me sei  
                                             e onde quero continuar




(foto minha )

02/01/2013

Rendição



"assim que possível", dizias tu

e o vento das tuas palavras
acariciou-me a cintura
em diáfana emoção


o verão das tuas mãos
a preencher estes invernos
longos e frios
e a tua boca a redimir
os beijos vazios
que projectei na espera da saliva

e nesse teu sorriso de (a)mar
perfeito e cálido
 meu corpo entregue
 já sem bridas
em campo aberto
rendido no mosto
ao tacto dos teus dedos
ao
 sol febril da tua língua dócil

 meu corpo em rumor de espigas
ondulante
atravessando a noite
navegante
mordendo o fogo e o  grito
 tua rota
minha fonte

ancorada
no teu  ventre aberto em lança
a beber teu verbo branco
em secreta e oscilante navegação
o sal doce
da sofrega sucção 


 momento
de sangue e ouro
a roubar silêncio
ao fremente gotejar da saliva


01/01/2013

I just had an epiphany




                                        tudo se transforma
                                            uma epifania
desmoronou a intranquilidade
de uma longa interrogação
que perenemente viveu no abismo das sombras
justificando sigilosamente à razão
o movimento indirecto de uma roda dentada
congeminada por uma sombra de luz
em mudo pesar


cinco pontas
na intercepção do meu fio
um cognitivo clarear
uma estrela luminosa em minhas mãos


célere sensação de dissecar
as partidas de um porto
onde os sorrisos da boca
ficaram estagnados nas chuvas do sal
                                                          e descontentamento


viagens em naus de sufoco
num marear turbulento 
de rotas sem mapas
de sentidos rasgados plo vento
sem contento
um arder na deriva no tempo
em ambiciosa paixão
e impossivel descoberta
                             ... mil ilhas de ilusões


sei-me agora
 num mar de branca espuma
e nos meus braços
há calor para o sentir da viagem

navegarei em mar azul tranquilo  
 sereno
e
de duras rotas
mas  a quatro luas
... exotismo no conhecer 
caricia em toda a descoberta


plos cabos da esperança ou das tormentas
e em tudo o mais que eu navegar
                      ousarei os sentidos
sempre à proa na viagem

        
     
 prazer e dor
                                 ... é ter no viver

  
             viver é navegar-me na mescla do sentir
                                                                             a cinco pontas

                                 ...estreladamente