31/12/2012

Continuamente...




Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.
Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento




Fernando Pessoa






30/12/2012

O voo e a queda



Les feuilles qui gisaient dans le bois solitaire,
S´efforçant sous ses pas de s´élever de terre,
Couraient dans le jardin;
Ainsi, parfois, quand l´âme est triste, nos pensées
S´envolent un moment sur leurs ailes blessées,
Puis retombent soudain.



 
Tristesse D´Olympio, de Victor Hugo (1802-1885)





as minhas (...) subiram ao céu
aladas na serenidade evangélica
 dos oráculos das conchas e dos búzios

na descida
vieram ancorar no oásis liturgico do meu peito

onde espinhos de monja 
aguardam 
jardins de descalças madrugadas




(foto minha)



Lótus no silêncio do Vento




há palavras ávidas de sentido
a quererem sobrepor-se ao silêncio dos gestos
são palavras feridas em batalhas
de renuncia e sofrimento
maceradas pla saliva da língua

e deixam rastos de memórias na alma, traços no corpo

são palavras
gravadas com um ferro a fogo mudo
uma tatuagem em homenagem à preversa loucura
que vão apodrecendo em lentidão
na rouquidão de uma distância enganosa 

são palavras
trespassadas por um vento frio
avassalador
que pétala a pétala
me desflora


quero-me na boca da brisa
...no limbo do vento
mastigando a arrogância das palavras

quero-me vagabunda na mudez


lá...
       onde lótus floresce silênciosamente

Na lira


no meu ventre gero a trégua
exponho-a à tranquilidade dos céus
é hora de colheita
e
de aquietar os mistérios
desse simbolismo pagão
que
guardarei  no Templo de meu peito

os pássaros são livres
e
seguros
a eles pertente o ar ameno de mil céus
e
os azuis dos voos por distantes mares


eu
sou apenas a manhã
que em fim de dia
fica ávida de sereno lume
sou
uma boca a conjugar os Verbos
de um perfume que se pretende vertido
sobre o pinheiral do teu tronco nu

 sou
um rio de perfume verde e selvagem
quase humano e animal
escorrendo entre as margens
no embrulho do som
vertido por uma lira de esperança




"fugire urbem ut vivere in áurea mediocritate"



28/12/2012

Em prata




é neste brilho de prata
que brota a musica
que me transporta além de nós
e, nesse Templo
serei sómente a força ígnea

do amor nada direi
porque nenhum sonho se repete, além do mais
basta
              AMAR-TE...



(fotos minhas...hoje)

Mais uma primeira vez




























guardo aqui na memória
...em  contemplação
o sabor do sal que a saliva trás nos beijos
e afago esse  mosto na cumplicidade das mãos
como se quizesse  iniciar uma reencarnação

percorro mares, falésias
sinto no percurso
que foram dadas às palavras o sentido do gesto
e nas pautas
foram escritas com claves de sol e luas
o som do afago
e tudo se torna  na  melodia ondulante dos pássaros


caminho-te bem devagar
os olhares estão distantes
e tão mais próximos
...célere percurso da retina

prófugo momento
                         perdulário d´emoções


mas o percurso
exacto e preciso
pune o corpo castigado
pelo verdasco transfinito
(o livro que abro e não leio)
e uma concha escutiforme
vem
envolver-me sentires
atrozmente devolve o momento
e tudo fica terrivelmente plano
meus lábios mais amenos


...antes de fechar a concha
olho o céu
e balbucio no sal escorrente, que sentiu já esses beijos

- imperativo
ser(mos) de novo
os dedos e os lábios
a tocar e a lamber a trémula tez
como inicio inaugural
           de uma primeira vez




Subindo a noite


olha-me em silêncio
tira dos meus lábios todas as preces
que dito em surdina à minha alma
em noites como esta
sob uma lua prenha
de tua luz tão cheia
e faz-me voar nesse sagrado mar de prata

 dá-me nele o hálito doce e cálido 
esse sensual habitante da tua boca

 quero na noite entornar de minhas mãos
esta ferida gretada pla saudade
nascida nas batalhas de neblina
 moradora num campo de espera
que me arrebata em pleno a  luz
e me impede de seguir o caminho
que em cada pôr do sol me principia 

olha-me em silêncio
na doçura do brilho da prata
                                            percorre-me a pele 
e sorve comigo os ecos suaves
do prelúdio da germinação

dança-me o tempo no abraço
recolhe de mim
o sol que guardo pra me diluir
no teu explendor de dunas                      
                                          a reflectir a alba




beija comigo a ascenção do dia
                                                                     qual madrugada musicada
que aninhada no explendor dos ramos suados
                                                                fixa o olhar em nossas valsas




(foto minha, Sahara-Ksar Guilane)



26/12/2012

Elevação



o olhar dormita em chama fria
os sentidos despertos
aguardam em exaltação
a
magnanimidade do apelo


vem
olha-me
toca-me
faz-me florir no seio de Lótus
e

    ser
        a
                 Deusa
serpenteando em chama
o supremo despertar



Girassois sem sen(TI)do...


























sabes,
hoje abandonou-me a vontade de fingir que acredito
que os girassóis andam em torno da lua
e que a liberdade é algo que se escreve
no corpo intelectual de mil chavões
ou nas linhas intercalares do que  não vivênciamos
ou que viver é simplesmente pensar e transmitir
anseios, desejos...divagações...conduzidos por  vagas telepáticas
de um prazer não abraçado
para ornamentar a solidão  e as paredes caíadas de branco
na invocação solitária da miragem
a afagar sufocos e a tecer nós na garganta

não!
não acredito

viver é SENTIR


acredito
nos sorrisos e nas mãos a transpirar odores
nos olhares de raiva e de amor, e dor também
acredito nos livros caídos ao lado da cama
em espera e afago 
acredito nas notas musicais a dois sentires
e na carne, na carne a tecer rendas nos corpos colados
e a destronar inpudicamente o sentido da saudade
acredito no formigueiro abdominal do (re)encontro
com um cheiro de desejo a arder nas temporas
flamejando a permutação
e acredito na química a crepitar no ensaio das marés
transmutando os tornados da luxuria e tesão
com as bocas a inseminarem loucura e paixão
e acredito nos barcos que partem
outros que chegarão
acredito na luz
no abismo e na escuridão
acredito nas ausências temporárias, suadas de persistência
e acredito nas lágrimas a escorrer pla boca da tristeza em  imensidão
e nos bilhetes de carinho deixados nas esquinas
para comunhão
e acredito no sofrimento sem tempo a trair toda a ilusão

e acredito no momento,  no SENTIR os sentidos em rebelião

ai sim, como ACREDITO!





... meu amor, desculpa, mas hoje não me apetece acreditar que os  girassóis giram em torno da lua...







25/12/2012

Navegando no tempo






















este querer
navega indiferente ao fluxo dos ruidos
está no silêncio dos lábios
tecendo os lençois de linho na consistência da luz

uma calma desmedida
repousa-me nas mãos sob uma ténue lua
há uma  clarividência d´orvalho
no lago dos meus olhos
que sustentados na brandura dos meus ombros
mastigam mil desejos
e há neles uma curva singular na adivinhação do tempo
...uma etérea trança desfeita
passado Dezembro a florescer nos silêncios do gesto

vou no pólen a desenhar linhas de vida
e as minhas mãos em concha,  são o sorriso
em espanto à incógnita gemida no pasmo da descoberta
e na descodificação do teu mar levante, sempre inquieto
a soprar e submergir quilhas e  conceitos
os preceitos do casco ao convés

quem és?

mar, navegante, um  tempo, fome, despudor, ameaça
ou a dor de te saberes na recusa das medusas?

aninhada neste sussurar de brida e fola, sem falar e tu bem sabes
sou um florir antes da nascitura
em agremiação, talvez destruição...quiçá flor de uma qualquer ternura

há um tempo d´inverno neste sol tão frio
e um fantasma aquecido no desejo do pó
vai bordejando nas veredas periféricas do meu corpo

há um  visivel nada reflectido no vento ameno
que oculta nas pálpebras
o tempo e a vida
e se desfaz no colo deste poema...
onde vou  navegando em palavras
coladas na rosácea setentrional das nossas bocas
mordidas
partituras

as palavras, mares e marés ...tão silênciosas

ah como te queria Poseidon
deitado sem dormir no canto das minhas pernas
em alento, nos meus braços
na dulcificação das quilhas do barro
num gemido de silábas áfonas



...quão indiziveis me são os rumores do grito a ecoar nas ondas
jubilando o teu nome em frémito sustenido

ah esta vontade
incontrolável
de dizer-te, em noite mareante, de lua cheia, ao teu ouvido

(....)

(....)

  mas, silênciosamente  vou mordendo o verbo
e soa um eco dilacerante
entre a faringe aberta e o cerro maior
na forma injuntiva, dos meus lábios cerrados de sufoco







(foto minha: South Africa-Cap Tawn)

22/12/2012

A forma e os olhos























anda, deixa para trás esse lugar
e o conforto quente dos plátanos
há dias em que os desolados absurdos
precisam florir no pólen da terra
e os cálices das oferendas
transmutar e sentir
gemer e explodir
na pele da alma

e não há sol
nem fogueiras de estrelas
comparável a esta ousadia
que volátil
transpõe céus de luxuria
evocando pensamentos e sentires
respirados e lambidos
neste ópio escorrido das artérias


mas esta ousadia 
fica olhando-se  a si própria
num beirado de janela
em migração sofrida e clandestina
como um pássaro preso na órbita dos sorrisos
em voos  limitados
sem ventos arrebatados
num sereno e triste extase
no limbo de cada  prima(vera)

os olhos precisam partir
terem o movimento do coito
sentirem lascivamente virginal
o embolo a ir bem fundo na saliva da pele
roçarem como talimãs
o céu burilento,  de mil sentires
o sangue e a carne

os olhos precisam chegar
ficarem parados
dentros dos meus, dentro dos teus
e suspender a vida mesmo ali,
num até já
numa eternidade volumptuosa
na luxuria da forma de cada um de nós


vem
deixa os cultos prosaicos
na senda insondável dos teus portos

domina teu mar
mas não te impeças de me navagar

                                       sê nesta breve e ténue espuma
                                                                               meu amado
                                                                                          meu pecado




 

17/12/2012

Farfalla



 em outros céus
eu descodificarei
letra a letra
o
significado do teu "nome"

 voarei

e aportarei em meus sentidos
o conhecimento do silêncio
e das palavras


                                           ...a musica com que me falas 


Viagem



percorri-me em despudor
sentindo
 relembrando
 abrindo recantos de mim

os silvados tingidos de amoras negras
repousando
em lençois de damasco e cetim
um mar d´incenso em vagas
a desfiar terços e viagens
o farol dos portos onde me atraquei  e também parti
mil abismos de lume intenso
onde me imolei e cedi
e aras de culto, decoradas de palavras e silêncios
planicies de amores desamores que semeei e colhi
tempestades e arco iris
 chuva regando as páginas marcadas do meu livro
 sol
e cânticos de liras em  luas de (des)encantos


dentro de mim a noite e o dia
como que por magia

nua em sorriso de criança a dançar
aurora a brotar

vestida e estendida, amarga nos traços da pele
 a chorar


e
e vi-te amando, a ti  e ao outro(a) e vi gente a odiar
e uma terra triste a girar num céu azul 
que iluminava
a vida e a morte no sulco da falésia que  gritava
e
vi buzios, conchas, e pérolas a rolar
num vento forte que teimava em os levar

também vi
os meus dedos numa caricia de espuma tranquila e branca
no tempero amoroso da água e do sal

...um fogo quente no perfume de um mar


 
                                  
 um mar de baga forte, envolvido com o doce do mel
      e
                                a serenidade veio
                                                tatuar o carimbo na viagem





(foto minha)




16/12/2012

Os meus silêncios




demoradamente
numa morada interior
bebendo nas pedras das entranhas
o choro e o grito das palavras
de um inverno úterino





(foto minha)

Sede dessa água...



a penumbra
 o musgo
a festa, a carícia matinal
as
 gotas d´água  orvalhando-me os sentidos
aqui, neste esboço e momento
de sentir
a Arrábida, a respirar pra mim
o mar, percurso lento e doce a ombrear-me
a respiração
e
 o movimento

uma ida e volta
sem principio e fim, em mim

queria suspender a vida aqui, ali e acolá
ter o corpo no percurso deste ar
e os pés no chão
num até já além de mim

queria uma eternidade de momentos assim
descansar da fala e do amor
num silêncio molhado de mim


trago no ventre
o fermento de um tempo escasso
d´agua
e nos pés um frémito molhado e frio
a fala muda
o corpo a escorrer urgência
numa equação fundamental

e não sei por vezes de mim
nem onde toca o bandolin
que me sulca
e
me arrebata
me prende ao sentir em forma eflúvica
e que dia após dia, parte e retorna e não descansa
e me faz dançar a solidão
 me molha o corpo

mesmo
quando eu falo ao mar e à  Arrábida, como agora

 destes meus dias secos
 de uma enorme falta dessa água....





(foto minha)


15/12/2012

Oggi...No!



voarei
voarei em céu aberto

acima de mim
quero olhar-me, ficar incrédula
ridicularizar-me

e
depois...depois
soltarei uma estrondosa gargalhada
(nunca chorarei de mim)
cobrirei de nuvens tudo o que sinto
e
rasgarei no vento
 as vogais e consoantes
 com que genuinamente me traduzo


hoje quero-me longe de todo o entendimento
e
deste inquietante sentir
                ora quente
                                  ora frio
                                                          mas nunca ameno



 
***

... hoje,  faz um frio horrivel nesta minha  "terra"



Saudade



S
A
U
D
A
D
E

percorro estradas
mares
e
olho o céu


sinto

....e em todos os odores há a fragrância da SAUDADE




Luz de prata




não fujo a este ritual
de repetir  o mergulho nesse  abismo
que sei
amarrar-me no perfume inócuo dos silêncios
para fazer gemer as arestas pontiagudas das palavras

é pela noite
que o céu me  aporta  essa tua luz de lua
um trajecto irreverente cor de prata

é um caminho cintilante do caos e maravilha
o ritual  que desafia conceitos
e onde eu  junto
a filigrana dourada de luxuriantes memórias
exaltação
que me faz mergulhar em teu perfume

e do teu sopro excitante e quente
sorvo o almiscar, o ambar e tudo mais que de ti brota

ébria e pregrina
             volatilizo-me, encarnação talvez de Freyja


                                     e sou já a total ausência de mim própria





Dolosa serenidade



a noite trouxe o sonho e a lua
 pedaços que escondidos sob a luz do sol
saíram para dançar sob o mar de prata

submersos num templo de chamas
rimos da pele e dos abraços que deixámos nos olhos
do mundo 
e da vida

archotes fálicos 
apertavam meu corpo em demência
gritos das velas faziam gemer no sangue
as valsas da luxuria
e tua amarravas  na minha  boca o silêncio
que promiscuo te saltava dos dedos
no afago do falo

um leito feito ara
gemia sob os corpos,  guinchava devassidão
em lençois de cinza
queimavam os ventres ociosos de solidão

magma  visceral
decapitando a abstenção

 o vermelho e o negro
ardendo 
em cegueira brutal
transmutando à noite a quimica sideral

linguas enroladas
veias  no percurso do caos
  
a magia grotesca

o movimento ora lento ora brutal
um céu a gemer
sobre uma terra a germinar espirais de prazer
o
sorriso apertado de bocas nos corpos
carmim
e
branco
no suor e no grito do sal
fogo na espuma da água
a morder o irracional

....o explendor luxuriante na expressão animal



14/12/2012

Madrugada



há hoje um sol
a repassar-me a terra
o aroma de mim
a moldar o sorriso

doce este arco-iris
que em embrulho de luz
se reflete na chuva serena
que tomba

abraço-me bem forte
...e sinto no peito as batidas
de um harmonioso compasso

...melodia na visibilidade

um cântico
no templo interno
escrito em pautas de água
e
 terra molhada


                                             a parir mais esta madrugada


13/12/2012

Babalon



trás esta noite a insónia da lua
e os espaldares de rosas escarlate
denunciam a ausência do sono

há no peito a batida
de uma navegação
e nas janelas o clarão desse navio
que sem porto e sem maré
se desenha no sonho da neblina
Babalon


vem e vai
vagabundamente
fazendo-me  estremecer na ondulação
mergulho envolta em algas e corais
espuma
e
 sal 

o desassossego orando no corpo
que  ininterruptamente rola em espiral
e as mãos inquietas torcem-se
 afagando o grito do farol

há vermelho sangue na estrada do navio
e palavras gravadas nas escamas da sereia
um mel de ostras a bombordo
alma no leme 
rotas de lume rutilante, perfumadas de sentidos
estiados qual bandeira

há no ar
um cântico em réplica ao odor do mar
a sublimidade a navegar livremente 
sem portos, nem âncoras
ao luar




as minhas
                                                     rosas escarlate sob uma lua tão cheia...








Magen David


seis pontas, tu minha estrela
a referência de teus angulos
 em minha boca
no sopro quente
 lingotes e lábios
a lamber os silêncios
no invólucro nervurado pelos dias de sal

um tribal percurso
no deserto aguado da pele

e a luz
em pontas de sabedoria
                                           acaricia-me
no anuncio da tua vinda
                              em madrugada
                                                 a aurora boreal
...corpo e sangue na nascente


 a vida pára
suspende-se nas emanações
o dominio dos quatro ventos
a decorar em eternidade a falésia do teu corpo

criação
revelação

rendição aos lírios negros da saliva
e as linguas em pétalas perfumadas
são o adorno das bocas

e num candelabro de quatro velas
arde nosso abraço
 conexão

não sabemos dos rostos
nem do tempo, nem da vida
tudo fica lá, além
apenas os corpos a ressurgir das trevas
em odores de festa 
na mescla
de fúria impregnada de doçura

o sal e o sonho no embrulho da luz...


a água e o fogo
a migrar em cascata
                                     plos poros da luxúria