31/10/2012

Sulcando a pele





na intensa volição
lambo
o topo do teu peito
o desejo empurra a língua
na direção da plenitude
ventre
umbigo na maciez da boca
mãos nas pernas
hastes trémulas no cume do tempo
o desalinho do sangue
sob os inchados lábios
a transgressão da muda linguagem
que descendo
te vai entreabrindo pernas
boca
lambendo, molhando
mais e mais
aquilo que se desprende da loucura
a
espada hirta
para onde me dirijo incauta
e
me enterro devagar
interior de boca preenchido
do cimo à raiz
pulsando em disparos
a plenitude
na entrada e queda
golpes de espada grossa
afinco de humidade e baba
 é minha
sinto-lhe o fogo a morder o sal
furiosamente entre e sai
projecta-se na bainha dos lábios
os
lábios
a
língua
boca cheia
eloquência no desejo cego
um
prazer almejado
no sulco das cordas da  garganta
magma quente
enebriando as papilas
o doce sopro a semiserrar-te os olhos




29/10/2012

Urze...




há uma luz cindida na urze
que ocupa o teu lugar
e me ilumina
é a suprema nota e o afago das cerdas do tempo
elas entrelaçam-me, na brandura da noite, uma a
uma
como que a adocicarem-me
pelas infinitas saudades
que tenho do teu cheiro
vão plageando quiméricamente o teu sorriso
e afagando a maciez da minha pele
da minha voz a sussurar-te
elas, as urzes sorriem
quando deixo tombar a cabeça
pra te abraçar o olhar
e dizer-te felinamente, através do vento
- sabes como te gosto!
é então que as urzes vêm ao meu peito
curvando as hastes em afago
descendo vagarosamente o meu ventre
tuas mãos em doçura
e cinzelam o percurso da tremura
estonteante lua cheia
minhas pernas
tuas (entre) pernas
e se desposam no vórtive macio
triangulo sem "bermudas"
apenas sob e só da maciez dos galhos
urzes
mãos
sede
infinito

[...]

e é lá onde me enlaças
no sobrenatural, onde ninguém além de nós consegue chegar
que eu te murmuro quentes silabas
para de novo me enlaçares
em dança lépida
e tu ágil e franco me profanas
 dança mistica
 endeusas os passos na sensualidade de um fogo alado
boca e corpo
em varzeas ondulantes e supremas
cheiro d´urze, sal e hortelã
o ar do fogo
que é teu beijo

e mesmo nas ausências
eu sinto a presença aconchegante dos teus braços
e danço no teu vento
sinto-me
a constante e ousada valsa da luxuria
dançada na tremura e vertigem dos teus passos....


urge! urze! 

26/10/2012

Mudez

No odor das tuas palavras ...
 habitam os pensamentos com que adormeço...
A mudez é em ti uma expressão
Descobres-te nesses
medos que te devoram as horas
e te cravam a pele de cansaços
(...) 
               by Isis


  negro é o cansaço
quando a alma me enche de polén o barro frio
que reclamando a essência das silabas
ortoga para depois 
a era entrecortada do punhado d´agua na flor do musgo
dou-me na ausência
sim
para viajar descalça nos portais da noite
na esperança de florir
além das luas
encho os lábios de sal
 desbravo-me
nua
e
crua
num espiral de metáforas



                                                       ...estou além dos preconceitos
hoje e sempre
audelà do que estanque se perde no vento





                         
(foto minha autoria - S.Miguel)

A plenitude...



há também nos lábios
a sucinta habitação das palavras
e até os ombros falam
quando os braços não adormecem as noites
e o corpo permanece cansado
pelo verdasco da mudez
é aí, então que se decide expressar
no espelho das réplicas
os ressonantes leitos de nevoeiros e medos
como lençois
alvos, imaculados de silêncios e de ti
desvastando os medos
porque a vida acontece nas dobras da pele
e os amores são cosmos
tecidos na irracionalidade da razão
cerzidos dia após dia
em bastidores de luz e escuridão

que te dizer mais com o meu silêncio
e com as falas do meu corpo?
que te dizer mais do emparelhamento das pedras
onde estão verbos escritos e outros por escrever?

recuso-me a chegar à humidade dos olhos
porque eles sentem
recuso-me a adivinhar sons e arpas
porque a Natureza sabe dos compassos

falo-te apenas dos meus bolsos de pele e sangue
dos meus sorrisos
das minhas rugas perfeitas
desta comunidade de Mar e barcos
desta espuma pura e envolvente
num Céu nosso
e falo-te do meu olhar de jade e fogo
a adormecer no vaivem
e no vendaval das folhagens
e do coração a bater em vida

no compasso de sentir(te), perto ou longe (tanto faz)
em queda e arqueio, joelhos, imolação e contemplação
falo-te da minha boca entreaberta
soletrando:
- papéis
- poemas
- desejo
- musicas
- silêncios
- enlace de tíbias

quero ainda dizer-te com e sem palavras
como é bom estar nos limites
percorrer(te) corpo, trilhos, ausências e cidades
e finalmente
sentir no desejo a iluminação do sangue


ser-te, amar-te, chegar-te, sonhar-te, preencher-te
sem pudor, sem medo


ser a pedra, pó de verbos e silêncios
Cosmos e Macrocosmos a beijar-te a pele





(foto de minha autoria- S. Miguel)



24/10/2012

Trança



agarra-me a trança que agora não tenho

o teu abraço
em volta do meu cabelo
faz-me sorrir

parece
um bináculo de tardes mornas
onde mesmo a ausência
não consegue ofuscar  a missão
de conseguires perder-te
entre a cicatriz e o enleio

agarra-me a trança que agora não tenho

talvez haja um Domingo a escorrer subtil
perpectuando tudo daquilo que é lembrança...




(imagem minha)



Sangue e Arte




que mais quero eu
que esta arte de me saber
aqui
e ali
existentemente, onde me aconteço
numa brancura intemporal
sem gesto
nem pretensão
a morte e a arte
fundida numa lira
num sonho
na lesão de um tempo
que mais ninguém concebe
e tu conheces...

é por isso que me afago
para que o vento me não procure
na mordedura do gesto sem razão

olha como eu páro
páro, porque não me quero a respirar
no deleite do nada
quero a tua musica parada
na legislação das minhas pernas

e estou lá
na imperbialização do momento
o momento tal
em que vomito e troco o sorriso da boca
pelo sangue
                                 quente
numa escuridão "alva"
de mergulho intimo e aragem

na arte do prazer dos teus olhos
onde os dedos recriam lagos
e ligas d´agua no pão negro
e onde não há frementos nem monções
apenas este devaneio em forma d´arte
de te ser
sem pedir(mos)
o toque de uma mão
...a morte e vida...
lá, onde nos visitamos
e o tempo se extingue no sal da lingua
e o odor é o tempero do desnorte
amilscar, canela, despudor
e extrema unção
um baptismo iniciático de morte num fogo
de tesão, vida, e adoração

...onde nem a rotina tem razão

tão sómente a simultâneidade
do que está longe é sempre perto
um tudo desafiando  nadas
ousadias tão permanentes

como aqueles nós de nós na inconsequência do comedimento

cheira comigo estes laivos
de fogo...anda cheira

                                                                             são                                            
                     o
                                                                 momento
                                               dos momentos
                  

       e são vermelhos, como sangue solto no branco marte



diz-me, diz-me, qual de nós um dia parte desta arte?







(foto minha autoria)

07/10/2012

Saudade




estou na ausência das palavras
um silêncio
que só o mar sabe
uma partida solitária
cruel dança de cisnes negros
sobre nenúfares líquidos


os meus olhos sem os teus
são saudade

saudade dos teus debruçados na minha boca
na volumptuosidade dos lábios
a luz suspensa em caricia
uma tatuagem de saliva e sal
na minha língua
 onde o arrepio da pele
me segreda que sou plena e mulher 

saudade do teu colo
altar da minha prece
e o meu ventre
a palavra exacta contra o teu
na fulguração do fogo
 exaltação da noite e do desejo


nestes dias
em que me quero
de partida desta saudade
só o poema sílaba a sílaba
sabe o quanto padecem
a minha boca entreaberta de espera
e os meus braços em desnorte e busca
tecendo, vagos, uma curvatura louca
procurando a eterna forma
do teu corpo
que em torno das minhas coxas
feito rio pulsante, margem e regaço
faz acontecer as madrugadas


parto
fêmea e só
rodopiando
no transbordar da saudade
silênciosamente muda
perdura, dolente


 
levo a dor, o frio e a tua falta
uma ausência a laminar-me corpo e alma



Obrigada!


E porque este blog também pertence aos que me amam, aqui deixo um poema, que para além de ter sido por mim sentido na corrente sanguínea, por razões óbvias,  é acima de tudo um excelente poema, da amiga(irmã) Isis.
Obrigada!





(Porque Sara está triste...)


Estranha nudez perpassa no teu silêncio
Deixas-te conduzir pelo olhar da noite
Transcendes a realidade
Viajas pela cidade como Cesário Verde,
Em cada candeeiro desejas a iluminação suprema

Ó janelas abertas ao Tejo,
Abri-vos para os meus sonhos
Levai-me a todos os portos da saudade
Trazei-me, devagarinho, o murmúrio do violino
E eu calar-me-ei na espera

Corro para ti a passos lentos, porque  o nosso encontro tarda.
Tu tardas e eu espero e o Tejo pertence-me
Só ele me devolve o calor dos teus braços, 
nesta noite fogueira onde me sento 
para escutar o violino que me deste.


(by Isis)

05/10/2012

Nas águas do Tejo





ruas vazias
traços, odores da noite
atropelo nos passeios
humanas sombras

em cada candeeiro de Lisboa
estavam os olhos
e nas paredes,
de janelas fechadas
havia o silêncio das bocas

um Tejo adormecido
embalava, sem saber
barcos de saudades
atolados de esperas
sem portos, sem terra

e sob os meus pés
um  tubérculo ansioso 
germinava na lentidão
e no calor dos meus passos solitários

meus braços
eram pêndulos na cadência
do verbo
um percurso na mente
tão cheia de ausência

 
volátil me quiz
num elevar-me
ao ritmo do meu peito
o palpitar vazio de uma  noite
saudade
a empurrar-me pra ti

dor e bruma
nas ruas de Lisboa
eu, a alma e o soluço
solfejo e fado
lágrima
a escorrer lentamente
rumo às correntes do Tejo





(foto tirada da net - autor desconhecido)