30/09/2012

Traços e Madrugadas



desenhavas o meu corpo com palavras
e o carvão tinha a textura
do pólen fresco
mel
na floração da pele

a carne prenha de silabas
tatuava sentidos
e eram longas as rotas de poesia

quentes
          especiarias

canela
a perfumar nossos rios
odor de noites nuas
suspensas no retorno das vogais
caricias, aluviões


 
margens
            as nossas


 
e nós eramos margem
                               e rio
no desgoverno da lava quente
palavras
conjudadas
arte do verbo
a
brisa
transpondo muros e janelas

sentidos

os nossos
que em voos de luxuria
navegavam o Tejo
caravelas voadoras
asas enfunadas
plo ritmo da paixão

uma partida, uma chegada
                 em cada um de nós
permutantemente


e os voos cessavam
               quando irrompia o grito nas palavras


e então, transpirados de luxuria
escorriam gota a gota
plos parágrafos do mel

no fogo de nós
           a fenecer na doçura do sal


 vinham aninhar-se
        adormeciam entre as nossas mãos
                                                    ausentes de sono


                                             e davam lugar às madrugadas




 

29/09/2012

Perfume




na boca um toque de seda
 hálito de fogo
sal a escorrer dos dedos

no corpo o abraço
o linho tecido 
no (a)tear dos sentidos

a cor crua
no rendilhado desejo


 odor 
                                                o perfumado registo...


                                             ... ar bebido no beijo





28/09/2012

Fina miragem






dunas
seios
 redondos
sal
na
miragem
do
ventre

mulher
vulva
aberta à boca do vento




(foto minha - deserto do Sahara)


27/09/2012

Sentir (te) no Arco-Iris




ofereceu-me a natureza, hoje
um imenso arco iris
ia de uma ponta à outra deste céu que vejo

todas as cores com que pincelo a fantasia
estavam lá, num expoente máximo de beleza


os azuis com que recrio o mar na tela
as cores lillázes que colho no silêncio do campo
quando na ausência  és o odor do alfazema
os tons de mel a reflectir teus olhos
o rosado, carnudo, tom ta tua boca
a mistura de todas as cores
definindo os contornos do teu corpo
a cor do sangue que engolfa tuas veias
os cálidos pingos de chuva no enfeite
e homenagem ao suor das tuas mãos

(quando sob tórrido calor, ceifas a seara do meu corpo)


tudo tão belo
                       tão perfeito

cada tom  a sorver-me em flecha os sentidos
arte na consciente sensação dos momentos 
                                                passados, presentes, futuros



 estou "nua"
no restauro do quadro das memórias
neste abismo  monocromatico dos sentidos

um recriar-te em jeito de perfumada fantasia




uma invisivel tela

                          de pele

e pigmentos

              
um sol de mi(m)       
    

                                          a musicalidade do teu corpo

escrita na pauta do arco-iris






24/09/2012

Corpos abertos




os dedos escorregam devagar
nos corpos abertos
que a pouco e pouco
vão despertando a noite

e tu sorves na escuridão as minhas pernas
e eu na tua boca sou mulher
a lamber no vício das palavras
a saliva que afloramos no trajecto
e as tuas mãos tacteiam trémulas
 a pressa de teres o que já sentes
possuindo de mim o que não sabes
na osmose perfumada
 teus sentidos vestem o meu corpo
e são a clave de sol
a pauta a compor o fogo
na conjugação de notas e de verbos
 profusa gula de vogais
 virgulas de suor e sal
 lingua remetida ao sulco da pele
uma espada a trespassar-me o ventre

 gritos que enrolam as cinturas
 odor de bocas inchadas
mordidas na febre solta
ao pregão da luxuria
onde nos apertámos
para soltar ventos e vagas
numa tentativa de espraiar
soluços


...soltamos sorrisos cheios
                                               lentos 

a lentidão do cantico indelével...
                                    ...na plenitude do mel a derrocar



23/09/2012

Memorae




sublimes
as noite desses dias
em que nos queriamos
totalmente


abertos um ao outro
perfeitos
como cavernas secretas
na permuta de segredos

meu corpo a taça
a colectar os fluidos perfumados do teu corpo
  mosto e água


 agora
os dias são secos
a ausência que doi
e greta a pele
arde-me



estou na água salgada dos meus olhos
a alagar as memórias
a refrescar o estio do meu corpo
                 tão vazio

e
                                          tão prenhe de ti







22/09/2012

Suplica



meu corpo d´agua a arder
lua cheia de mistérios
que não sei compreender
quando me dou a este amor
e te sonho na pele, cama vazia
num calor ausente e de silêncio

és-me na invisibilidade do ar
o frémito, a conjugação, a cumplicidade
uma boca tatuada de vermelho
 sangue a engolfar veias
 maré alta
uma piramide de  lua cheia

(...)
*TU que serpenteias,
 Ser vindo da Terra do Sol Nascente
enfeitado de sábias plumas
a contar o tempo plas estrelas
ensina-me
justo conhecedor

ensina-me

ensina-me a tecer o linho com as cores do meu amor
ensina-me a entender esta musicalidade
que se me cola ao corpo
 dívino extase
sublime explendor
ode maritima
 lua de prata a enfeitar este (a)mar

ensina-me

ou então leva-me contigo para o mar
deixa-me ser também teu choro
arder contigo nessa chama
ser a cinza, o vento e o nada

e do nada faz-me renascer
relembra-me o regresso
baptiza-me da tua sabedoria
pra lhe ser no amor um coração de luz
 paixão, desejo e sabedoria
talvez estrela

a estrela gravada na pedra
um reflectir no mar o amar
doçura e luz de cada amanhecer




*Tu - QUETZALCOATL (Serpente emplumada, um deus Maia)

21/09/2012

Sedução na espera





sublime sedução esta de esperar-te
enfeitar a boca, os olhos ou os lábios
treinar a respiração, suspirar a malícia
aspergir de ansiedade libidinal
os corredores velados das pernas
cujas memórias brotam
para abrir as janelas do sorriso
lamber as brisas da espera
e conceder às cortinas o dom de refletir sombras
o reflexo de  um contundente objecto
que agarro, molho e acaricio com a tua cor
num rasgar ao calendário a folha convencional
estratégicamente assinalada
e entregar-me a espaços vacilantes, inebriantes
no teletransporte do fogo e água
e assim ficar na dureza firme e contida de frágil te(ser)
agarrando as palavras arrancadas ao meu sexo
para as conjugar dentro de ti...
...até que esta dor de alegria recomece







20/09/2012

Viagem




que eu seja a ninfa
 inspirando a viagem
fogo e metal a dilatar-te as veias
que minhas mãos delimitem as margens do teu corpo
e o comprimam na chegada à barra
 que sejam meus seios, pessegos rosa e maduros, alimento da viagem
minhas pernas e braços o abrigo das tuas tempestades
e se faça na minha boca o eco da voragem
que todo meu corpo seja bussula e navegação
e a minha mente a tua caravela


 



19/09/2012

Tantas que sou...



sei-me de mim em mil
um querer
não querendo
a desejar
não desejando
amar
não amar mais

estou na busca incessante d´entender
quantas de mim mais serei
 agora aqui
quem de mim já passou
qual  de mim no porvir será

qual  te amou
                        
             qual te odiou

te prendeu no desejo
e te expulsou
te desejou no abraço
e te ignorou
qual de mim te chora o sorriso
e te cala a voz

sinto-me sentada na balaustrada  da consciência
num olhar adentro às mil de mim
na determinação d´entender
quem sou
onde estou
e
o que faço aqui...




 

                                              ...qual de mim te procura afinal?

além e no outrara...onde sempre nasce a saudade.




Amar, amando





amo
não me sei de outra forma
que não a de amar, amando


amo
como a força uterina
num expulsar  a vida

amo
como quem cria num afago
a própria  alma

amo
 doçura e  brisa
 tórrida  lava de vulção

amo 
o presente do verbo 
na conjugação da "viagem" 

amo
a exaltação da espuma
 mar a escorrer  entre os dedos

amo 
  lágrimas e sorrisos
na musicalidade dos  sentidos

amo
o sal do corpo suado
em explosões de  magia

amo 
o desfolhar da boca
nas páginas de um livro

amo
os traços de um esboço
a preencher a saudade

amo
sentir e sentir(te)
criação elementar
dos sentidos

amo
o perfume da TERRA
prenha d´ÁGUA

amo
o percurso do FOGO
a crepitar no AR


amo
  ESPÍRITO d´ amar
vida e morte, amando...



AMO, porque  me não reconheço a ser viva,  d´OUTRA FORMA



Sufoco



o corpo comprime-se
aperta-se contra a alma
sufoco ou recolhimento
nem sei...

 um nó visceral
a fazer-me sentir
a dor de estar aqui
suspensa num galho
olhando o imenso vazio do mundo
ruinas
tijolos de devassidão
caos e sofrimento
 indiferença
 miséria
 crime 
 brutalidade
o sufoco e o desamor

e eu aqui...
suspensa
de olhos no vazio
velada na impotência
a sentir uma queda eminente
comprimida e impotente na  argamaça do caos


real a  "força" da gravidade
tão esmagadora e a tudo tão indiferente...




preciso chorar
                                                    para  que se volatilize a minha alma




 


(foto minha...uma rua algures em Veneza)


16/09/2012

Meu livro de palavras






há mensagem dentro deste livro
um sorriso também
mesmo quando encerrado entre as pálpebras

os meus olhos, os teus olhos
no debrum amoroso das folhas

onde as palavras ficam

horas e dias a fio
a embalar-me
esta saudade
este silêncio
esta eternidade
num estádio anterior à própria fala

neste intímo lugar
ilha onde isolo a tristeza dos dias
bandos de pássaros vêm
sempre serenar-me
e o mar afaga-me
enquanto leio Dante na areia

ou quando
dos destroços das ondas
numa cumplicidade d´alma
as minhas margens se alargam frias
rente à face

uma lágrima
a constactar
os destroços de barcos
outrora navegáveis
o leme e o amor
nas velas dos teus dedos

caravelas
a inventar novas formas de  navegação


***

era  Domingo
nos olhos, nas vilas, na tua cidade e em todas as bocas
até nas horas do (a)mar
e eu nua de mim
transpunha a bruma densa
abraçava-te
eras-me
tão só
a luz suspensa
o verbo, o extase, a flor de sal
espuma, chuva morna, arco-íris, boa-nova
caminho de lua percorrido em barco de papel



a constatação absoluta e tão maior:

(que nome te darei?)

 - que nome te posso dar, de amor, que tu não tenhas?




(foto minha)

Eco(s)

"Escrever é também não falar. É calar-se. É gritar sem ruído"

Marguerite Duras





 um dia falei de ti ao pergaminho
dei-lhe a guardar tantas emoções
que quem sabe, talvez um dia
todas as palavras em comunhão
atingirão o sorriso do silêncio

e o eco do grito
                    te falará de amor



15/09/2012

Dhyána





acima do Sol
numa luz intensa a ofuscar sentidos
o pensamento evade-se


não há espaço
nem tempo
nem mundos


apenas um extase
sem verbos
nem poemas



uma derrocada
em liberdade




onde estou, onde estás
                                                     onde estamos
         em unicidade nua e crua


 experiênciando amor
  fusão e tensão
na devastidão da ilusão

                                                    (sem paixão)
                                                 um templo de percepção
                               no sentido
                   na direção
da comunhão

 e no divino de nós
a devassar veredas e verdades


verdade(s)!...
                                       
...choques
               possessões
 quereres e não quereres
                                               na pretensão
tanta manifestação...




(e nós aqui a não querer (re)lembrar...)


Leve torpor...




hoje quero-me num tempo ausente
embrulhada numa teia transparente
tecida em  fios de solidão

não quero o caos
nem o fermentar de pensamentos
avultados na teimosia de (re)vivenciar
a minha própria trajectória eliptica


quero
o momento, este momento
tão volátil quanto uma carícia
 planar na própria respiração
sem principio, emoção ou qualquer fim


quero
uma morte lenta e perfumada
concebida na maciez do óleo

                                                                   no  incenso
roubado à destilação do jasmim...



(foto minha)

14/09/2012

Febre nas veias





(...) só a febre a que me assisto, frágil
sabe maior o delírio das aves
que em voos de dor e de refúgio
se perpetuam em mil céus
quebrando  nuvens.





(foto minha - Istambul/2010)

13/09/2012

Recriar




venho de um sono
onde me sei  pura
porque não desprezo o que desejo
entrego-me à tranquilidade
sabendo que dela retorno
liberta  da fadiga dos  processos
uma cura temporária
no deixar d´existir algumas horas

uma doce penetração na morte
roubada à volumptuosidade do corpo
longe do jogo do amor
esse estranho, capaz de transformar a alma
mas também
 onde cada jogador necessáriamente se abandona

amor
amor
tão belo e solitário como a dor humana

porque (te)amo?
porque me quero  no sono
em morte
e ressurreição
no abandono

 não sei...
teria que perguntar-me porquê

 sempre procurei respostas a perguntas
e sempre  perscrutei a espuma
como se a verdade se encontrasse no coração da água
num amassar de sonhos
para erguer paredes no mar
e reter os acordes do silêncio

 tudo é silêncio
 sim
tudo se cala, até a nossa alma
apenas o eco da respiração
a prolongar a vida numa ilusão

uma ilusão
onde  nem sequer existimos
 como tudo o resto
nem passado nem futuro
apenas homens a inventar o tempo
para provar a eternidade
essa vã negação, tão vã
como eles próprios


estou neste sono
de presentes sucessivos
num caminho perpectuamente destruído e continuado
onde me dou conta que vou avançando
recriando-te num papel de espuma
dando forma ao sulco do carvão





10/09/2012

Son corps

                                


le bruit de l´eau est si proche
si près
qu´on entend son frottement contre la poitrine

je caresse son corps dans ce bruit
ce passage
l´eau, l´immensité qui se regroupe
s´éloigne
et
revient



 

(foto minha- Amarante)

09/09/2012

De mim em mim




nada sei de mim
mesmo quando em dedos sofregos
toco minhas pernas
num percurso metafórico
na intenção de me saber real 

 o  vento sacode-me os cabelos
 entorpece-me  a alma
quando me quero mirar além de mim
e ser a maré
na leitura dos movimentos da lua

estou no mistério das palavras
no motus da luz
na  suavidade silenciosa e a  sentir
que sou a    infeliz    feliz
dividida entre o jogo da água e do fogo
 redescoberta geneológica de um  passado
conjugação de momentos fugazes
poléns em pés de abelha
em voos de estimulo
Philia de mel
dopamina de uma  sede
de beber nas sombras
os designios imutáveis
das  palavras que esperam por mim
na indiferença das esquinas
calor e a cinzas a fecharem-me os olhos  de cansaço
um desapego do mundo
um choro no sulco térrio de  meu peito (vazio)
porque a paixão não tem forma
e eu sei que felicidade é um complemento circunstancial
de um lugar
de um passado
onde nada nos pertence

 eu sei-me tão sómente
no tacteio vago do percurso
na simbologia das vogais 
porque não sei desenhar eternidades






07/09/2012

Num despertar





o frémito de um corpo a acordar
no murmurio ávido da saliva
 lugar de chamas
 vasto corredor de memórias regressadas
pronunciando devagar e em suspiro
as sílabas do nome e das paragens
onde um dia me fiz
a promessa  de tuas pernas


o estremecer do teu corpo
a abrir-se humidamente
no lume da minha língua
a beber-te lentamente
como orvalho  sangue  ou seiva


vem comigo outra vez
escreve na minha pele, em branca tinta, as coisas que recordas
e que deixamos tombar no meio de sons e de silêncios
longe da penumbra das nossas pernas



06/09/2012

Tranquilidade



a  saudade é  um tranquilo
voo de gaivota sobre teu corpo de (a)mar

que em  vagas azuis
 de(lírio) e catedrais de espuma branca
perfumam meus sentidos









05/09/2012

Nascer em cada madrugada



tu nunca hás-de entender
porque preciso nascer em cada madrugada

nem a razão porque privo de luz os meus olhos
nas noites em que me subtraio ao sono
para reter nas mãos os contornos do teu corpo

sabes, não quero ver o soluço do meu sangue
apertado nos beijos da minha boca
nem o extravasar das minhas margens comprimidas plo desejo
e na ausência dos teus dedos, quero os meus  a vociferarem
palavras ardentes de  fogo e cinza
palavras que guardo na cegueira , para melhor  sentir

há testemunhos no  lençol amarrotado
energia no  pensamento de  te trazer aqui
onde tu, retido na minha pele, ou à deriva,  tanto faz

és sopro quente no limbo das minhas ancas

a fazer-me morrer vezes sem conta
num espiral  de seiva branca, em turbulência no meu ventre cheio
lá onde, depositaste em noites escuras, vogais brilhantes de silêncio
que sabiam ao sal da tua boca morna, lembras?

e eu a perguntar-te, de que essência eram feitos os teus olhos
porque tatuavam poemas na minha pele nua
e tu sorrias, tomado pela entoação lírica  do desejo

é nesse sorriso, onde cega me sento,pra melhor senti-lo
que enrolada em lençois amarrotados de lembranças
noite após noite vou morrendo
um fogo ardente,  e cálida cinza
numa  epopeia de  lìnguas  a morder, onde cega me deito e morro a sentir

tu nunca hás-de entender
porque preciso de nascer em cada madrugada