24/08/2012

Nausea



há nausea no grito que não dou
dor nas lágrimas que não choro
um aperto oblíquo nas palavras que não solto


...sinistra musicalidade
                                             em assédio aos meus sentidos
uma paragem no acorde
do ruido de cacos 


 

o momento



onde mil cavalos a trote
empoeiram pensamentos
na destruição dos verbos
conjugados no júbilo do fogo


quero-os
                  cinza 
absoluta cinza


...de rasgo na alma
                    em abandono
fecho os olhos
                 mordendo a boca

sabor a sangue e caos


 habita em mim uma noite gélida, cega, muda e louca
uma febre de dor 


***
 estranha, esta sensação de desventrar a luz ao momento
num esmagar o pensamento


cacos em frenética dança 
                                          vida e morte 




 um grito silêncioso
                                  na baba da nausea
                                                   o vómito




o silêncio da loucura
                                       no desafio do sorriso

  
a minha oferta ao esquecimento



22/08/2012

no Tejo


espraia-se o Tejo até à barra
em volumptuoso caminhar

há na suavidade da corrente
a
 partida
a
 chegada
de
 mil barcos
de
mil sonhos

descobertas
e
castelos

âncoras e ninfas na expectativa do abraço
bocas mordidas de beijos a urdir promessas
sorrisos
e
 risos
lágrimas escorrendo das bocas carmim
num desbotar de linho




                            sou um barco que parte
                                                                                                           
     de mim,  deixo a saudade que já sinto





(foto minha - Estuário do Tejo)




Choro(s)

Eu não quero tocar teu corpo de água
Nem quero possuir-te nem cantar-te
Pesa-me já demais a minha mágoa
Sem que seja preciso procurar-te.



Sophia de Mello Breyner



do mar ecoam longínquos choros


 ais de silabas, tristeza das palavras

verbos
conjugados no limbo do vento





(foto minha - Mar Cantábrico/2011)

Segredos



ao mar contarei os meus segredos
osmose e partilha
na cumplicidade do sal





(foto minha - Mar Cantábrico/2011)

20/08/2012

Metamorfoses


"Os ares, negros, movediça, a terra.
Forma nenhuma em nenhum corpo havia
E neles uma coisa a outra obstava,
Que em cada qual dos embriões enormes
Pugnavam frio e quente, húmido e seco,
Mole e duro, o que é leve e é pesado.
Um Deus, outra mais alta natureza"

Metamorfoses (Cosmogonia - excerto) de Públio Ovídio Nasão



 amor pessoal
a suplantar deuses e homens

mortais em transmutação valorosa
um apertar escrituras sábias nas curvas da pele


caminhos, veredas, abismos de transfiguração


 rios e mares
no percurso imparável de si próprios



(fotos minhas - Banguecoke 2011)

Emergir


faz tempo que não sei de mim ao certo
dei-me conta
que percorro portos solitários
onde ninguém chega
de onde  ninguém parte

portos empobrecidos
pela  ausência de partilha
naufragos de um tempo tétrico
albergue
de
fantasmas ensombrados
pelas
 sensações
acasos
aventuras

já me não bastam

quero acontecer-me
é tempo de emergir sem lei




(foto minha - Carrasqueira, Agosto/12)


lo gioco di trottola


falaste-me do pião, do tempo
do lento rodopio
da linguagem crua desse movimento
no centro da tua mão

era 5ª feira
eu inquiria o borda d´água
sobre coisas tão banais - a cor do vento,
a temperatura da água, a cor das madre-silvas, o lado negro da lua


entrei em rodopio, sem fio
pião na palma da tua mão.diz quem viu, que, por lá fiquei rodopiando


depois?

era de novo 5ªa feira
e eu voei da tua mão
voei sem ter aportado num voo de asas

agora repouso
no esgalho quebradiço de um poema


Reflexo(s)


olhei o mundo ao contrário
e vi, espantada, que afinal ele se reflete sempre igual

vi-o do mesmo jeito e na desordem
daqueles dias em que a lucidez observa
e permanece estacionada no limiar da minha alma





 (foto minha - Amarante/12)

19/08/2012

100Tristeza

(…) Mas as paisagens sonhadas são apenas fumos de paisagens conhecidas e o tédio de as sonhar também é quase tão grande como o tédio de olharmos para o mundo.(…)


Sinfonia da noite inquieta
Fernando Pessoa – O livro do desassossego





tão fácil olhar a noite

quando de olhos lavados

e no reflexo do sal

perscrutamos quietudes

prenhes de mensagens

metáforas de silêncio

mensagens sem boca nem movimento



                      cega luz esta que me enche a alma

                      estranho e sereno  bem estar



apaziguador não ter de subir a montanha


para sentir quão fácil afinal é reconhecer o engano





(minha a imagem)

Explicando silêncios


não, não sabia
que as ondas podiam expraiar
a explicar silêncios

a espuma branca 
o azul das águas
o mistério das ânforas

não sabia tão-pouco que o negro te antecedia 
madrugada, aurora boreal à palidez carmim dos meus lábios

e que o azul, e o verde do mar
eram
a cor mestiçada dos meus olhos
o brilho das anémonas
na contraluz dos teus

não premeditei existir-te
nem ser
sequer senti minha a premunição
dúctil decorrente das palavras
com que se explica o silêncio
- a tua boca sobre a minha
o teu silêncio a vibrar na minha voz

na minha falésia
sabia ontem
como hoje
dos dias sábios
das argilas, das âncoras, das ondas frémitas, vitalícias
da flor de sal
a bissectar as formas
das pedras d´aras angulares
de onde te chamo


no cântico dos pássaros negros
no linho urdido no tear dos astros
hoje, hoje e não ontem, nem amahã sequer
foste
um silêncio inexplicado
uma vaga
a morrer sereníssima na curva dos meus lábios



18/08/2012

No silêncio da bruma



há um quê de bruma
talvez de Sebastianismo
nas batalhas que travamos
por entre letras, vocábulos
imagem-matéria 
escrituras de dedos trémulos
plo galope do cio
a subir por nós de nós
 respiração pungente
descoordenada plo ébrio calor
do fado de V sentidos
num desfazer lentantamente impérios   
qual rei perdido em  Álcacer Quibir
 lenda de  punhal no segredo das mãos

há silênciosa promessa de um retorno intemporal
após o tempo dos gemidos
dos despojos desta guerra
do deleite de braços cansados

ou
          quiçá tudo seja uma morte
           a tal  morte

de mim de ti
                (que nem Bandarra anunciou)


na morte o silêncio faz-se a bruma

                                                     bruma: 

mito
                                trejeito
desespero
                       segredo
queixume
                                      cio
               escravatura
tesão
             bem
                                            mal
                       metáfora
deleite
                antítese
                                       lava

raiva            
                amor

sexo

                                        silêncio
 sorriso
                     grito



                       TU,  homem oculto neste mistico movimento de morte e brumas


             já te não ouço o grito nem o silêncio, nem tão pouco sinto a dor d´aspirar o odor do teu segredo




                     ... sei-me sómente aqui tão perto, cega de bruma, mesmo ás portas de Álcacer.


                                                   

o teu sorriso toma-me


(REMOVI A FOTO POR RAZÕES ÓBVIAS...embora fosse apenas um disfarçado sorriso)



I
tens o sorriso de um deus

apenas
os meus sentidos

doces

sensíveis e sábios

sabem da mensagem
que rente aos lábios
explica o sulco da romã
no perfume do beijo

beijo(s)

 mosto
 mel e fel  
de (in)quietude
a ambivalência... 
quando na espera
mergulho num pulsar
de fogo e dor


II
na tua boca

ai como morro devagar e nua

sou madeixa no desalinho do vento
lacre de escritura

o mesmo verbo
com que pronuncias suspiros às madrugadas 


III
és-me o fascínio
lago e serenidade
revolta
pronuncio do céu

mergulho no inferno
quando
do(s) canto(s) da tua boca
bebo
colcheias prenhas

água de mel e menta 

o sal


IV
quando em abandono
caminho o monte, solitária

numa escalada nua de ti

subjaz
o que deixei da tua boca

apenas na mira
a sombra justa dos meus braços
um vulto

incerto

em anseio

de te ter em mim
no meu colo
a tingir d´audácia o sorriso

no sentir a mordedura na comunhão de linguas
em festejo

o arrepio

o  desafio à vida
no toque  do sal
o som da saliva a escorrer

morosa

amante

   
              no teu queixo

V
assim me torno vulnerável
na ida além  mim
além  tempo



                                        o momento
                                        em acorde de bandolim a imitar o teu sorriso


                                                                  nunca a eternidade nos tornou tão perto



15/08/2012

Passo(s)



os teus passos têm som
mesmo quando tarda a noite
e as  ruas cheias estão desertas de ti

vou-me olhando na luz que reflete a tua imagem
e sigo naufraga
de braços curvos
abraçando a neblina morna
que embrulha a tua imagem
e os meus dedos
buscam
tacteiam
a curva dos teus lábios
meu alento
meu  parto d´amor
ode de saliva
 tinta de escrever teu nome
nas paredes do meu peito
onde palpita o eco do fascinio
de cada letra

cada silaba
é vela, vento, mar, maré
na minha boca d´ostra
onde morna a tua
e o som do beijo
é musica a propagar-se nas tardes
em que tardas
e os teus passos
 são marés vivas tardias em chegar

em deserto de mar
ou mar d´areia
aninho-me no sulco do som
espero-te no vento


porque além do tempo
                       além do verbo

somos o amor
e o desamor
guerreiros
e
naufragos
                                    escravos desta espera





13/08/2012

No tempo das Amoras



não me sei madura
nos silvados de mim

plantei-me no sol
de um terreno fértil
olhei o céu
 bebi a chuva
reguei-me em dialogos de lua cheia
um tempero de estio em tez clara
cânticos de fénix
na volatilização do  silêncio da morte

mas amoras não levedam
e o sol não confere carmim à cor das formas
cansada de ser semente
na concepção
na maturação
na colheita
no mosto e na língua
de uma boca

(há em qualquer boca a ansia de ser lingua  e beijo, palavra e verbo, sorriso e canto, ancora do desejo)


 pingam  sorrisos no vazio do eco
quando nada sou
além do momemto
de ser uma
de
outra
desta
ou
d´aquela
no ciclo das amoras
perdidas nas estevas
onde as urzes crescem a medo
e os corvos debicam
os tempos (dos) mortos
em ressureição da carne
no visceral  sangue do tédio
mastigando ciclos de descontentamento
quando na consagração dos templos
a divindade pratica rituais
de água e fogo
ébria de  medronhos
de tempo nu e  vago
despindo às rotinas
breves sonhos
pra conceber despertares de mel de fel
circunscritos dourados e anelares
qual brazão
de fazer lembrar...
num medroso sentir
que afinal a vida se perde
e o desejo envelhece
quando encurralados nas negras paredes
dos abissais pensamentos



hoje é segunda feira
quero que a vida me sinta etérea e virginal
num périplo de dias, de horas, de minutos
 a conjugar os verbos 
na audácia  
de pintar no meu sorriso o sumo das amoras



07/08/2012

Caminhando através do Silêncio



abro nas mãos um profundo rasgo
uma vereda de sangue quente
onde germina a razão
entretanto o vazio
vai florescendo na minha voz
e esta  não é mais que o silêncio de ti







foto da minha autoria (Carrasqueira, 5 de Agosto 2012)