23/07/2012

No fogo das palavras





há nas palavras
promessa e fogo
sem leis
sem mandamentos
apenas a desordem
de papoilas ardentes
no gotejar d´ópio nos sentidos
em silabas amarrotadas  
no lamber da pele
 ao sal dos seios
 diafana e promiscuamente 

 os verbos germinam
 aquecem o sangue
engolfam as veias
no vampirico percurso das ancas
a sacudir volumptuosidade
na heresia das pernas
que trémulas e nuas
dobram sois e luas cheias
 

 há um fogo inflamado
a propagar-se no vento
uma ansia, um frémito
 sintese e paixão
no levedar do desejo



vem
 dobra cabos, tormentas, esperas
na ousadia  da conjugação dos verbos
 amarra no meu ventre as palavras
e deixa-as escorrer
na lentidão da lava quente
no atear dos sentidos



faz de todas as vogais o acto consumado
...a liturgia satânica do pecado







18/07/2012

Reinventar




como sopro dos dias inadiáveis
aqui estou
sentindo-te na pele
em pedaços d´ausência
porque assim acontece,
um esquecer presente em cada passo
e é assim, é sempre aqui que chego, e, sem partir regresso
levada no embalo da  leitura do livro que não fecha
digo[te]
há que emoldurar um tempo novo
reinventar a próximidade do nosso respirar
talvez tenhamos que nos encontrar entre o mistério dos dedos
no levante dos pássaros
no estrebuchar do sol
na  hora térrea a saber a pele
talvez tenhamos,
perante a enormidade dos sentires
imperativamente colados ao desejo 
ser de novo a noite e a madrugada
os dedos
a sede
e os lábios
na tangência trémula da tez
como naquele inicio inaugural
da nossa primeira vez



lembras?
                                                    ...uma noite sacudindo a madrugada




Tarde(s)



quando a tarde finda
e o dia não foi mais que a miragem
germinada no sal de meus olhos
aperto as mãos
 queima-me o deserto
neste respirar de musica inacabada
a pauta do vazio
um caos em direção à madrugada


quem te escreveu na pauta do silêncio
nesse labirinto de sucessivos abismos musicais
onde canticos amarrados ao torpor da lingua
são abraços sem composição

bocas
mordidas
pelas
linguas
caladas
sustenida
inexistência
de 
saudade
e
vazio


 corpo a tremer na contemplação do nada

tu
          e
 eu
dós intemporais
colcheias prenhas de espera


não mais... que a sinfonia inacabada...






Tétis



hoje mais não sou
que a fina haste
a tremer  no ópio do vento

 Lissa em  prosaica ira
  palavra interdita no sussurro 
em  antítese ao momento

Tétis rendida a Oceano
no feitiço abismal do sonho

 uma onda ancorada num porto de fogo

uma concha recurva no silêncio
 boca de marfim nacarado



talvez...quiçá
                                                       ...a odisseia na curva dos teus lábios
hora tardia de um beijo...





17/07/2012

Silêncio



há no verbo e na boca
a quietude dessas manhãs
quando subtraida ao silêncio da tua boca
sou flor de cálidas pétalas
um perfume de corpos
amálgama de madeira e sal
canela e jasmim

vou-me inebriando
na feitiçaria das memórias
sulcando de lés a lés
o caminho dos dedos
no corpo arado
sementes mordidas
em saliva de suspiros
um despontar ébrio
no elexir das noites quentes


há neste silêncio a ressureição
um encontro na mimica da pele
qual alvará pra te recordar
amante, amado
 sorriso de lilás
boca carnuda, lingua adejante
falo em périplo dos sentidos
e meus sentidos retidos
neste pedaço de silêncio
 ode mordida ao sonho
de te querer a sul de mim
lá, onde tudo é possivel
e as silabas gotejam o perfume do desejo


há um épico som nos silêncios que infrigimos
....quando a pele se converte
na musicalidade das palavras






15/07/2012

Vento


por vezes
uma flecha trespassa
a nitidez de lume e chama
que na ausência de ti
que se me abocanha
da pele, a alma e mais além de mim

há uma estranha vontade
activação de memória
a nidificar
as noites
d´outrora
em que demoradamente
fui  tua morada

cisterna num restolhar de beijos
cristais de seiva e sangue

aferra-se-me
às mãos a vontade
de ancorar na tua pele
parir luz, bebida à iris dos teus olhos
lamber de teu lóbulo o segredo
este segredo
de me perder na saudade
das noites
que chorei
que gritei
morrendo e vivendo
na obliquidade do prazer
em noites tuas de lua cheia

luta minha, interna agonia
rodopio
moinho de vento
moendo o sal de ti
com a força das velas desfraldadas
em ciclones a elidir de desejo
meses a navegar-me[te]
um navio, uma insígnia, uma jangada


quando, por dias como este
me sei aqui, em bailios de palavras soltas
a ajustar[nos] às rimas e memórias
a resistir nos ventos, nos verbos e nas vagas
mendigante
senhora tua, deambulando caminhos

aqui, onde me vejo
passando, eu, por mim própria
sou monja na serenidade conventual
a bordar palavras agitadas
seguindo a matiz de teus passos
aninhada no sucalco

 
e neste espaço d´ausência de ponto em cruz
hà em mim uma brisa a amar-te, ininterruptamente...




13/07/2012

Soluço



estou na dormência do inverno
as minhas mãos amarram-se no regaço
esperando o sopro morno da minha expiração
para me dar conta
de que afinal não morri


10/07/2012

Bem[me]quer



os pés nus orando à terra
prece, proteção, aconchego
nem sei
 de tão volátil me sinto
quando desço na vertigem

não sei sentir que assim não seja
e pra que o sentir me não seja 
 a lágrima mergulhando a utopia
vou,  num  ancorar de mim
 de porto em porto
calcorreando os mistérios do sangue
quiçá o reduto desta ausência
chegada tardia de te ser
o malmequer, o bem[me]quer
o tudo e o nada
ou algo assim

....

 sinto o fogo deste frio a  banhar-me o ventre
é visceral esta estranha vontade
de me desfolhar no vento...



08/07/2012

Além subida



nas vozes do meu sonho
há a cor da urze e rosmaninho
o sol subindo a pino na montanha
um odor d´agua fresca
 silenciada nas palavras
a correr de mim buscando o vento

 a mão estendida
sem sombra nem promessa
apenas a vertigem
o despertar do momento

...lá
bem no alto
 quando o céu me tocar na pele
 serei pássaro de papiro
lua de mel
uma luz tocando o teu sorriso



(Photo by me)

07/07/2012

[De]mente





este é o momento
em que sinto
o enleio do meio
daquilo que foge e não vejo
dos silêncios de ar e de chão
um duelo travado no recinto do corpo
e no musculo
a que chamam coração

este é o momento
d´aprender
que o ar não enfeita
as palavras desfeitas
e a respiração
é um turbilhão
que se aninha na rima
no eco
no suburbio
na pele
no livro
no segredo
no mar seco da solidão

quem canta o gesto?
quem suspira o retorno do nada?
quem se desvela à matriz de um beijo?

há gaviões nas letras do poema
e
gritos
e
orações
...
amuletos
maldições
boa
e
má sorte
na transpiração de ventos
 no bramido do barro

este é o momento
d´amar odiando
 querer não querendo
num diluir
de sopros prenhes na musica das liras
e de roubar às  claves das conchas desfeitas
a fossilização dos dós

este é o momento
do jogo
d´azar e de sorte
da mentira e verdade
da não existência
e dos nadas a flutuar na espuma gasta

este é o momento
de libertação
de destruir ecos que ficam
na indiferença do sonho

este é o momento
de descer, subindo
na colheita vazia que morde a luz
na caricia gasta  das pedras cinzentas
lá onde o retorno d´aluviões
limpa poeiras

este é o momento
[de]mente e brilho
a lamber tábuas e esmeraldas
num  despertar de suspiros às madrugadas




06/07/2012

Ponto e nó



no corpo o vazio dos gestos
de te_ser sombra
em formas geométricas, dedos de ponto e nó

na boca as palavras profusas
de dizer[te]
que estou em mingua, na cegueira e na fome
dos teus lábios

e que na carne, tenho a ferro e fogo a marca
de teu corpo à força de sonhar-te

na chama e no fogo que [me]consome
há gestos de cinza
um abismo que me isenta de te ser arável
na ousadia dos verbos e sementes

sou mera peninsula salgada
 sitiada num mapa tão distante
improvável local
aquém e além dos mapas consentâneos
onde não chegam teus dedos
e o teu sorriso não bebe do meu

e se não há acasos
então que sejam os [de]lírios
e o vazio dos gestos
a desenhar escritas de sangue e lágrimas
num tempo preservado nas pedras




Negra



cega-me  a luz deste vazio
portos sem barcos, sem marés
uma espuma deserta
rasga nas mãos frias
o gesto de acariciar miragens
devolvida à ternura dos olhos


não há cor pra pintar a ausência
um enorme silêncio afaga o corpo da espera



Seara em mim




pudesse eu ser a brisa fresca
nos contornos do teu rosto
e contar-te-ia ao ouvido
mil segredos

pudesse eu acariciar o teu corpo
qual luz de luas a iluminar os olhares da noite
e dizer-te-ia dessas noites
as linhas de solidão com que alinhavo os silêncios
para bordar no amanhecer
as letras de teu nome

pudesse eu ser as letras com que escreves
e contar-te-ia de muitas vidas
os sorrisos
a paixão
as lágrimas 
 os beijos
e do suor a embrulhar a seiva
 das vestes que despi pra te receber
no perfume dos suspiros
do fogo a queimar o sangue
e das velas ecesas em mil templos
em reinados d´equinócios
 abraços de monções e de intermináveis solesticios
das bocas mordidas em tornados de fogo
 
pudesse eu ser o próprio pleonasmo
e dir-te-ia de mil desejos
 dias e dias a desfolhar a pele
no abandono de mim
adivinhando-te o sentido

pudesse eu ser o trigo das searas
e ondular-me-ia em ritual de sensualidade e de espera à colheita das tuas mãos


 ...qual semente, farinha, água, sal, pão a levedar no teu peito...



01/07/2012

Sortilégio



o grito solta-se ávido e revolto
profética fome
desejo de l´iras, no delirio confesso
sem toque outro que não seja
o sopro das palavras na  pele
em acordes finos
e gemidos de violoncelos
senão violinos
tecendo semi breves e colcheias
no espaço vazio entre o arco e o alvo
gerado à força de conceber
teu dardo a espetar o músculo uterino

de resto e apenas

o canto, o poema continuo, um desatino
a ferver o sangue que sangrando
vai acendendo velas
velas vermelhas, espiral de luz
a levar desejo a um "coral" distante


é sequioso este ténue sopro ardente
 um mergulho insano na apneia do espanto
de te ser, não sendo
o poema escrito
o erotismo
o sortilégio
o gozo num baloiço de ramos e palavras
 fruto suspremo
suspenso
macio
maduro
suculento
sem pontos nem virgulas
o anúncio prévio do sémen a derreter sílabas
qual mariposa de baba e lúmen
voando na lava incansdescente e macia do vulcão

quiçá o grito da noite...
a abraçar jogos d´enredos de boca, saliva e língua