30/06/2012

Saudade


                                          
                                                       

estreio-me nos dias
vinda de longe, de tão longe
de lá,
onde se tecem os silêncios
e a boca dos verbos conjugados
habita a suspensão dos poentes febris

e...quando a madrugada me acaricia

roubando-me à rouquidão das pálpebras do suspiro

suspiro [te] baixinho
tão baixinho...


que o sopro doce e quente,
se aconchega na pele onde me habito,

e rendida sou, a moira ás portas de gibraltar
rendida na imolação dos desejos, fímbias de sal, ternura e fogo

se ao menos, este cheiro da manhã te levasse a minha taça 
se, por um instante que fosse, não quero mais que isso

te lembrasses de mim,

e da janela dos meus lábios rosados
quando de ti bebem o vinho, esse néctar concebido em teu corpo
sob momentos de colheitas fartas... vindimas de suor e fogo
a bordar traços nos dedos
e no sumo dos sentidos

quando, em noites de acontecer  
conquistamos reinos perdidos, d´áquem e d´além mar 
e tu me és lança, frémito, disparo impetuoso
bastião e pedra d´ara



é nesta taça de beber
agora, vazia e seca...

                          que irrompe a saudade

                                                    do canto dos corpos vindimados (...)





26/06/2012

Quietude




esta quietude 
que me sobrevoa
qual borboleta negra
traçando circulos
ao redor de mim
leva-me ao limbo do silêncio
lá onde a as coisas que não dizemos
têm a perceptibilidade
da saliva morna da tua boca
quando desenhas o sorriso de um beijo 

 


10/06/2012

Tecendo sonhos



brandos são os passos
na nostalgia do sorriso
há pássaros no ar 
em voos de perfume
uma paz cálida e natural
sob este céu além ti

os silvados preparam amor(as)
no silêncio cúmplice das folhas
o pão leveda na masseira
o fogo crepita
aquecendo o barro

nas mãos a toalha de linho puro
enfeitada a rendas e pensamentos
metáforas de primazia
nos lábios o mel de urze
destilando o mosto dos medronhos


no peito um doce sorriso 
 enlevo d´ alma
brisa a tecer madrugadas
colhidas no entardecer
....qual mulher
escrevendo sonhos
nas silabas de vento





Foto: by Sara (hoja, na casa da Eira - Barragem do arade)


  

08/06/2012

Simbolos...



diz-me quantas vezes olhaste as estrelas
para lhe beberes a luz
num relembrar em solidão
das sementeiras d´outrora e sempre
nesse caminho sem passado sem presente e sem futuro
quantos cantaros regaram a infinita sede
de te seres inteiro no conhecimento e na palavra
em descoberta e rumo de ti
o tal navegante sombrio
de um mar revolto
barco sem amarra
guiado plo vento

quantas vezes desceste ao abismo
para veres a luz
a emergir de ti
no gesto do silêncio

quantas lutas travaste com a diferença
quantas feras te devoraram nesta selva
quantos sonhos mataste pra subir mais alto
quantas lágrimas mordestes para as não chorar
em solidão, numa interminável dor


quanto apaziguamento lambeste nas bocas
na luxuria de uma cama desfeita
quantas vezes amaste fingindo
quantas vezes fingindo amaste
quantas vezes odiaste amando
quantas vezes amaste odiando
quanto ais se soltaram da boca
em gemidos sacudidos no corpo
quanto sémem vertido na pele
quanto desejo elouquecido plo sangue



quantos  sorriso de anjo e demónio
numa boca a morder amargura
quantas tréguas amarradas nos braços
quantas portas trancadas por dentro
quantos silêncios derramados nas palavras
quantas vezes sorriste pra ti
quantas vezes sacusdiste o momento
quantas vezes renunciaste a presença
quantas vezes a solidão te quebrou os ombros



a noite caíu e tu tiveste pressa para estares contigo devagar... 





diz-me, quantas noites estiveste sem sono
                               na reconciliação com as palavras?










06/06/2012

Rodopio




percorridos todos os silêncios
que me levam a ti
revela-se o reencontro da luxuria
a apaziaguar a ausência do beijo
no levedar dos corpos
amassados no descompassado da língua


geme a derme, a epiderme a alma
um caos abissal d´entrega
sangue incontido na sedimentação da matéria
tempestades desfazendo nós

sobem as  mãos à tua boca
escorre entre os dedos
o eco da vertigem
rodopiante e suado
na subida
e 
descida em ti 
                                        ( bem fundo )


ai quem dera parar na turbulência
no arrepio do profano e dívino magma
comemorar sempre e mais ainda
o tronco, teu tronco, archote, vela
convertido num rio imenso e imparável
onde adejam suspiros de barcos e vulvas
no cheiro do cio acabado d´atracar



veste-se de negro a noite
al margem da própria vida

                                       um bugio adejante no renascer das águas





02/06/2012

Gotejar mistérios




sinto o ar a arrepiar a pele do tempo
o odor da vertigem a macerar a voz
e a garganta a gotejar de mistérios
 
escorre da saliva o desenho do silêncio
na obliquidade do contorno das lágrimas
 


vazios ferventes
de enxofre e força
 correntes de rios
comprimindo-me as margens
meu corpo é o verbo em sangue
gemendo na descida ao abismo

uma lua negra sorri no espelho
soltando o fumo das cinzas
os meus porquês...

...enseminam as respostas
no vazio aberto do peito
 

 cálidos segredos envolvem a alma
num reviver de monções
díluvios e vulcões

 no sal dos meus olhos
refletem-se miragens
um consentir de lábios entreabertos
no repouso das mãos
 

lambe a língua os mistérios
e a vulva molhada
cálcula o trajecto do beijo 


 
                            quem inventou esta sede que me consome?