28/05/2012

Fogo e Sal




vulva quente
no jorrar do frémito
sangue a engolfar os lábios do beijo
 rendição e gemido
 périplo de saliva 
abraço e despudor
nas ogivas da língua
um falo entumecido
 no império das veias
um deus em descida abissal
 nas grutas de fogo e sal
onde habitam odores de marés vivas

no tronco
 um rebentar d´ondas
 livre obediência
à musicalidade das entranhas
um vai e vem promiscuo
gravado na pauta do embolo
 que rasgando a carne do tempo
é o ocaso de sémen
solto no eco do grito

25/05/2012

Maré vazia




não lembro
se as tuas palavras são gestos
ou apenas o delírio no vazio da maré

quem dera
 que as conchas se triturassem na saliva
e o beijo fosse
uma vaga imensa
no oceano frutado da minha boca




Ironias



as silabas gravadas nos dedos
não se soltam
há um aperto ventricular em cada vogal
um jacto de insatisfação em cada consoante

já  não bastam as divagações

urge o calor do gesto
na respiração do facto 
o som da metáfora
no pecado rendido ao abraço
a semente a germinar
no delirio da constactação da frase

sopram ventos nos dedos
esgaçando a pontuação do silêncio
pedaços de silabas soltam-se na indiferença

o vazio a enfunar a respiração do tempo

 segredos e gestos desbotados na saliva

é urgente reconstruir as palavras
sentir-lhes no corpo a raiz e o verbo
lamber o significado

antes que o som da ausência venha
gravá-las nas areias





21/05/2012

Sintonia



olho-te no silêncio
de palavras cheias
de dizeres
vagueiam nos olhos
o calor dos  lábios
em gemidos de violino

soltam-se os ponteiros
no silêncio do tempo
que não detemos
e cada momento é frémito
convulsão a torcer os corpos

uma maré viva
concha aberta detendo a pérola
um relicário de desejo
no colo da jangada
as bocas a morder o odor d´incensos
as velas ardendo nas virilhas

a lúxuria
no grito
da demência
mergulho no veio escuro da terra
sem outro toque que não seja
d´arpas
d´alaúdes
d´liras
no delirio e no espaço
 d´arco e alvo
o dardo espetanto o musculo uterino
gemidos de um poema contínuo
um plano sem tino
o sangue, sangrando de quente
escorrendo no mergulho do insano
na apneia em espanto

um baloiçar de pernas
no aperto dos dedos
alinhavados na imagem
do fruto supremo

o teu

erecto
maturo
macio
suculento

calefetado de pelos macios
polvilhados de baba e lúmen
num jogo d´enredos de boca
 tesão, saliva e esperma


06/05/2012

Eu e tu Mamy



no embrulho da pele
a vida
no peito o aperto bombeado
pelas memórias longinquas
e aqui tão perto
sou
és
somos
 parideiras
um imperfeito infinito de palavras
o gesto amarfanhado
na ara do amor
 lágrimas diluidas no sorriso
no tear do ventre
tecemos
 alegrias, estios , tempestades
microcosmos 
ingredientes d´um universo responsável
soltamos as asas do olhar
na procura da vida
tudo tão perfeito...

ai mãe
- porque é assim tão pouco entendível fazer crescer o " Mundo"
(pergunto-te eu)

se há tanta luz dentro de nós




05/05/2012

Na Magia





sinto o corpo a ritualizar
um fluir doce
mágico
odor a incenso no percurso das veias
as mãos tão cheias 
na boca a prece
a invocação
na oração

sorriso de feitiço
que atiço na vela
a pedra velala a esconjurar
no papel a escrita
do teu nome

deixo-me envolver
arder
 volatizar
extinguir
sou um sopro d´energia
bruxaria
magia a fluir

semi cerro os olhos
recolho a aragem
e deixo-me partir
estou além
num ritual de dança
alquimia, sexo, magia 
na promessa
a demanda
da recolha
sou mulher
e
deusa
nessa dança


nua, num sonho tão cheio de lua





(escrito dia 05 Maio 2012, às 23,59 h )

Estio




nada tenho
apenas o verbo que a noite amarrotou
um papel escrito sem vogais
manchado no sangue quente
do estio venal de meus impulsos

nada sou
um vazio na deriva da  pele
um barco de papel
de vela amarrotada

sinto nos olhos 
o brilho a arder 
a mudez roubada
às lágrimas que não choro
da boca a tombar
uma saliva ácida 
escorrendo agora entre os dedos
a queimar o meu sorriso
subtraido ao pecado
nas pernas
o torpor demoniaco
uma morte circunstancial

NÃO

hoje

NÃO

não tenho, não sou, não sei, não quero

vou embrulhar-me na senda do vento
devolver-me  ao silêncio uterino
macerar numa qualquer paz
a minha loucura

vou
vou

na determinação
de morder a raiva
de me destilar
e
lamber a opacidade das pedras
delinear teares nos dedos
 ornamentar os cabelos
de negras rosas
vou
acordar
aqui
e
acolá
o grito

desafiar  despudoradamente
a solenidade
deste  profundo NADA





Mar de (a) Mar




não sei expressar palavras
não tenho exactidão
não as inventei ainda
 tudo  é apenas percurso de veias
sal e saliva
unto a escorrer na pele
 marés crescentes
no descobrimento dos sentidos
algas imersas
na imprevisibilidade temporal

espraiam-se na areia
versos e mistérios
escritos de espuma
partidas e chegadas
 dunas bebendo  odes de vento
no acalento do mito das sereias

havemos de partir no sucalco das mãos
quando a espuma  secar os beijos
e os lábios forem fragmentos
de búzios...
sem ouvir o mar


tomemo-nos na  irracionalidade
no mito da água
no toque dos nenúfares
 em oferenda cega 
à  insensatez da luz
revelemo-nos farol d´asas
a sobrevoar pontões de silêncio 
gemendo sorrisos abraçados muito além do mar
urge o tempo
 no enlace da gota d´agua