25/04/2012

Não sei dar título



recomeçamos, nos gestos dos dedos
a traçar memórias na pele
 de um tempo
 febril
impetuoso
 profundo 
abraçado  nos sorrisos
perfumados no suor da  espuma

tão desconcertantemente  real

tempo feito
nos encontros beijados da expiração
mordido no contorno dos lábios
de corpos sem pressa...

 uma infinidade a escorrer (nos) até à foz
a loucura de um vento quente 
a amar noite 
um rasgar  roupagens ao delirio
 legado de pele na  nudez dos sentidos

tatuagens

laivos de saliva 

 sémen
a sulcar os horizontes das linguas





...além, sob aquele privado céu
emoldura-se a cumplicidade
desafia-se o recomeço...



24/04/2012

Leio-te


leio-te
viagem além expressão...
 decantantamento da raiz do verbo
lambido  ao estio alojado
no limbo das metáforas


sei-te
o escritor
na descida à virgindade do mundo
o rolamento de uma simbologia
sem verdades absolutas
onde poder é despretensão
apenas uma vontade a exigir silêncios
na explicação
do imconpreensivel da razão


sei-te
o poeta
a  vulnerável vertigem
de pássaro asfixiado
no vazio
uma liberdade de plumagem negra
um impeto divino
em impiedoso xeque mate
ou a doce premoniçao
do que ainda não aconteceu


sei-te
o todo
a imagem sanguinia  da perturbação
a luta
o negro
o sexo
o conhecimento
a dor
o sorriso roubado à autocontemplação
na promiscuidade de um caos d´ imensa vaga
uma pungente exigência d´asfixiar
os torvelinhos da emoção...
                                          ...
                                                 ...
                                                                          orbe de criação







22/04/2012

...






vou ficar a embalar-me no silêncio,

                      ...a musicalidade do encontro...





Vazio




hoje abracei-me, para me poder sentir...





Abissal




trago ainda da noite o sonho
de estar rodopiando numa vaga imensa
muito além de qualquer entendível oceano

a molhar-me as mãos uma infinitude salgada
o afago que seca os dedos
a desenhar nos lábios
 gretas de solidão consentida

uma espera afásica de (te) chegar a "terra"

navegam nos meus olhos
vacilações
contagens de marés 
sem norte, sem pontos cardeais
o peso do leme
a esmagar o peito no intento
 de alcançar o cabo
aqui, além ou lá
(Bojador, das Tormentas ou da Esperança?)


ah esta vontade de remar
num oceano de abismos e de vontades feito
de um negro azul a naufragar na impercptibilidade
dos simbolos
que julguei saber interpretar
na mera casualidade da lei da causa/efeito
recolhida na intemporalidade
de um vento
num tempo que não sei
 

diz-me tu...de quantos ocenos serás feito?


21/04/2012

Vertiginosamente



estou na descida de mim
um frio intenso
nas palavras coladas na saliva
o corpo trémulo
ecoa cânticos nas paredes
da minha própria ausência
sinto os olhos molhados
 de um suor escorrido ao peso
de me silênciar à evidencia dos dias
um mergulho profundo no sufoco do grito
onde me não sei mais que
um nome que uso
um respirar lento
o desalento de te sentir naufrago
na morte de meus dias


quiz ser-te ninfa
mulher
a
rosa
da
sabedoria



... sinto-me apenas o éter a volatilizar-se numa estranha medodia...





19/04/2012

Por dizer...



tempera-me a ousadia
pra que te não seja
a palavra dita
o literal sentido
de uma inquietação pecaminosa
silênciada na agonia dos meus lábios
a constactar os néones dos impossíveis
desta ausência preterida


...e nesta lentidão
vou bebendo à gota
de cada lágrima
um transbordante céu de chuva





Revelação




há em mim um impetuoso rio
onde escorrem amantes e violentos 
todos aqueles verbos
que não te ouso proferir


chegados à foz
mergulharão profundamente
no oceano que os espera
talvez aí
aconteça a conjugação



18/04/2012

Na conjugação...





uma musica escorrega vagarosa e solta
nas paredes húmidas
quando as noites te choram por mim
na conjugação dos pretéritos
perfeitos
                                       mais-que-perfeitos
                                                                               imperfeitos

sabem-te senhor de um trono mareante
enorme e profundo nos meus olhos
no coração da sede
no verbo decantado

sabem-te marca indelével na paisagem
no meu corpo
castigado pelo verdasco transfinito 
 corpo que não consegue adormecer

vêm os pássaros dormir nos galhos dos meus braços
em abandono de intimo silêncios
levando no despertar os meus recados

mas noite após noite há o eco do vazio
o desencontro d´asas
e nas paredes cansadas do meu quarto
escorrem de novo noites imperfeitas
coladas ao abandono desses tais pretéritos
que um dia foram


                                                                     mais
                                                                     que
                                                                     perfeitos



17/04/2012

Descendo a Sul





da antologia etérea das tuas mãos
soltam-se as palavras
que no meu corpo lançam
epístolas de tremura
exímias, vagarosas
em percurso d´abandono
penetrando os silêncios afásicos da promiscuidade
…inominável tesão


as mãos  madrugam-se
em ventos quentes
na paragem dos bicos rosáceos
em direcção a sul
onde o corpo aberto à palavra
me espera
na ousadia do ensaio d´água
uma lua cheia
um tumulto na vertigem
um templo de sexo prenhe
fecundado no olhar
e na nudez do teu falo
esse albergue da  minha  língua
a deflorar gotas d´orvalho
sacrilégio lambido ao mosto das entranhas

meu vício venal, meu ópio

ah, sinto esta morte a chupar-me o cio
uma vertigem, a queda, um voo livre
no inquieto ribombar da tua boca
de  língua a sulcar o mel
vertido no porão das minhas coxas


deixa-me assim…
infnitamente presa ao  gemido
mordendo  as amarras  do grito
que lhes quero dar o suor do sal





16/04/2012

No arrepio






a loucura acontece
no solfejo do teu verbo nu
 
uma romaria profana
sulcando-me o corpo lentamente

ah, fosse eu a própria escrita
falar-te-ia desta morte quente 
que me navega no sangue
quando te olho a palavra

 

15/04/2012

Nesta Viagem



dita-me o sonho
o esboço a carvão de um grito
que habita silencioso o velho plátano
não há indução
perco-me desse  grito
e do teu mundo habitável
sou  a indiferença
perdida no casario
onde o quarto cohabitado
tem um telhado imenso
a cobrir o perfume do cio
num disfarce ás noites dos dias
em que os  ventos  guiam teus  passos
na subida da calçada
e eles se sucalcam em indiferença absoluta
ao banco que os espera na entrada 
 

essa errância é a margem do meu rio
um rio d´agua fluindo além  polaridade
uma habitabilidade singular
a encher as células do vento
 

quero-te em tudo
o que não é pressuposto e habitável
quero-te apenas
na vertigem da energia que se solta ao involucro de ti
um sopro do dívino
voráz gemido de um deus
disfarçado
 nessa alegoria que é teu corpo


sei-te assim de cor
 no sorvo da lava cósmica
um périplo d´alma e carne
de seiva e sangue na partitura do vento 
o código
inscrito em Lemúria ou nos Terraços Baalbek?
tanto faz...
uma qualquer ruina milenar
somos a causa, efeito
o além matéria, a simultaneidade da escuridão e luz
o verbo a resgatar-se no tempo

não se foge à brisa
quando se é o próprio vento

não se é lenha quando se é o próprio fogo ardente

um oceano fecundado na raiz da água...



                                          quem duvidará? Tu!

                                                                                           

13/04/2012

Sou a própria ausência



há um frio a queimar este fogo
uma mácula de fumo
que me não deixa ver
se a escrita é a minha alma nua
ou a oportunidade de expressar o verbo

sinto uma indiferença fria
colada à vaga nua de uma ausência prematura
escorrendo neste túnel d´água
aninho-me no limbo do vento

já não sou ar, nem nevoeiro denso
nem chuva, nem o ontem

sou este pedaço de mim
na introspeção adensada
latejando no remoinho do sangue

uma boca entreaberta
talvez a própria lingua
onde a vogal
não gera palavra
e a consoante
se consome perdida nos vocábulos dispersos

há um vazio preenchido
 em jeito de nada
uma musica sem tom
para tecer no vento
um duelo em mim
traiçoeiro
que abocanha o silêncio
oscilando entre a saliva e o beijo
um ar que não consigo respirar
 esse
que me vai queimando o fogo


***
queria ser apenas a gota de orvalho daquela manhã
que aninhada na seda da erva, se volatilizou no sol


09/04/2012

Arché...




vivo no mito
desta dimensão primordial
 véu sem expiação
um sussurro de rio, o teu
 curso imaginário onde me deito
pra beber esse poder de me ser
origem e fluxo



fluo de volta sobre mim, sobre ti
opostos
união em perpéctuo fluir
 nesta arte de me querer [te]
Água, Fogo, Terra, Ar
ou talvez
Senhora do Mar
 genese da multiplicidade
meio
não inicio
nem fim
apenas
a Noite copulando o Vento


neste esplendor do instante
quero ser apenas o bocejo quente, agitado
o fluído incandescente
incessante, pulsante
lambendo o caos das tuas asas


fluído
que passa para recomeçar
passando de novo
sempre outro
sempre o mesmo
fluir-ir-e-vir






07/04/2012

Torna-me



no fogo do teu olhar
despontam as alvoradas
que aquecem as palavras
na interminável conjugação dos dias

no fogo do teu olhar
 moldam-se as moléculas do meu corpo 
rendidas ao torno hábil de teus dedos

dá-me agora a água da tua boca
em jeito de estio silêncioso
 verbo inconjugável



tempera-me esta loucura


                                                porque me quero cristal
no sal de tuas mãos




* sopra lentamente o desejo

Fala-me



fala-me da ressurreição da tua boca
quando te beijo o hálito
quando te respiro o olhar
quando me sentes a mudez da palavra
na sofreguidão do gesto


fala-me do calor que te desperta
a minha mão
no precipicio do teu corpo
em frio inverno


fala-me da cor da ausência
quando te não sou mais que
a volatilização da saliva


dá-me a tua mão ...
                                          ...agora


                                                   que te quero guardar nos sentidos



No tempo das acácias



temos de nos consumir
no perfume da acácia
antes que o mundo nos redesenhe
em arco
e
flecha
um curto tempo de amoras


habita-me pra que te seja
a frágil pétala
doce corola
o abraço de raiz
o nectar no desenho da tua boca
em conjugação lenta e doce
quente...demoniaca
no silêncio da palavra



Estrela




segredo a cada despertar
um sorriso de conchas feito

                  (trituradas na força da maré)

sou afinal
não mais que uma estrela do mar
perdida na areia



                                 em despedida da noite




05/04/2012

Passando os céus




quando a noite desce
neste silêncioso quarto
e o teu corpo é apenas  imagem inventada
na flor da minha boca

de sal e fogo

uma inquietação de brisa rebelde e de pecado
de pupillas diltadas
confere aos gemidos de meus  dedos  musica de uma lira ausente
tocada no desejo de uma batida de rasgar a pele
uma posse de horizontes em concordatas distantes
uma terra alagada nas tempestades do meu sangue
e é tudo tão próximo de distante
que  meus dedos despindo[me] a insanidade
ferem o ventre da ausência
nesta carne faminta 
de ti um desejar, de querer maior
a boca seca no repensar da saliva
 frémito lávico e devastador

abeiro-me de ti
passando céus, as estradas, as pontes, os pórticos
desfaço-me lentamente nos poentes
 

tomo nas distâncias a magnitude silenciosa
 de minhas dunas, (teus) desertos