30/03/2012

Deste jeito...outrora e hoje ainda assim



na profusão dos gomos
mergulho de mel e mosto
 minha boca traça na tua
o sulco da  luxuria

nas mãos 
a oferenda d´inventar auroras
na oceanografia de teu corpo
nu
febril
audaz
rendido

à epopeia de meus lábios
onde morro a renascer(te)
na metamorfose gradativa da saliva
que te consente, apostrofe milenar
estrela de cinco pontas
água
fogo
espada
grito de guerra
e
silêncio uterino
 mescla de memórias antigas
 nascentes impetuosas


quando mais de ti não sou
sou batel, barco, barca-bela, espuma, labareda
de Diógenes, sei(me) a narrativa incrédula
d´ausência elementar
neste principio
de fogo e água
                                                  .....na deriva



meus passos perdem-se silênciosos
na crista da falésia
donde não atracam nem aves

                                                                                                                                               nem asas...




 

(em jeito de comemoração...)

28/03/2012

Ao ópio de teus olhos



as palavras são silêncio
moldura, enfeite...apanágio
no meu soluço contido

não há arrepio de minha pele
réplica
na subida alquimica no teu corpo

 
na mingua de ti
sopra a inquietude
 dos ventos
na comporta de meu peito

rendida ao gesto
d´abrir minhas mãos
no denso em que me enformo de te não olhar 
vou tacteando o vagaroso tempo
 na urgência de te subtrair á espera


solta-se em mim uma esperança opiácea
colhida no regaço da papoila 


27/03/2012

Labirinto



ai este meu pretérito que não dorme
de imperfeito
não reconhece o esmagador silêncio
das noites em que te não sou conjugação
sem tempo e verbo
vagueio num labirinto
d´obscurantismo, loucura, evasão

quem dera na dormência da noite
achar o caminho da tua boca




Diz, oh diz....



Agora estou a sorrir, da insensatez com que hoje risquei de negro os meus olhos, para confundir no semblante uma noite por dormir. E continuo a sorrir também, mas agora, da absurda pintura a cores que gravei na tela ampla do teu corpo, porque distraída não percebi que  afinal não estava posando para  mim. Como consegui eu misturar os tons indecifráveis da tua realidade com os tons claros da minha distração? estas minhas pseudo capacidades de adivinhação...são tão surreais, que de facto me fazem ainda continuar no sorriso. Imagina que me dei  conta, que os os meus dedos não tomaram o caminho da antologia etérea dos teus lábios,  mas que ficaram presos na ondulação dos pressupostos do silêncio e na deriva do  murmurio azul...Tchiuuuuuuu, sequer me fales, espera, espera o momento de me espraiar na areia, até lá sustenta a palavra no casulo da tua pele, porque eu sou também amor(a) esmagada pelo bulício da chuva...a divindade do mosto, e apenas espero o momento certo, de me destilar na fluídez de um verão de palavras, que se avizinha quente. Até lá, diz-me através da tua melhor expressão, dos teus silêncios , oh diz-me, para que sinta, uma vez que seja, que te sou o que não te basta, mas que sou também o alvor do silêncio, a candeia húmida e acesa, no porão do teu peito, no lampejo desse silênciado desejo.


Prenha de "nada"



é-me interdito pensar
quero feneçer num verbo
de sentido oculto

 a noite já me prende o grito
apaga o rasto de mim

soa o latejar das minhas veias
numa procissão devassa
 sinto a miragem de mim

sou 

uma lua negra
o vulção
a lava
o vazio
uma cinza quente
a queimar

amarro meus olhos
vendo minhas mãos
e cega na procura
respiro a promessa vã


sou a que não existe
de tão prenha de nada



foto: minha mão

26/03/2012

Loucura




as palavras que não sei escrever
prendem-me num imperceptivel soluço
um não querer de tanto

 um fogo que me percorre
 queima e se alastra
que não consigo parar

o verbo
é uma terra fecunda d´água
que  não molha
e me não mata a sede


uma margem vazia de ti

 no ontem, agora, amanhã
um sonho dissecado na vigilia
 na raiva matinal da saliva
na fúria estival de uma escrita breve 


 apenas sei deste nó a cegar-me a garganta
e de um cheiro faminto e forte
ancestral
 a impregnar as narinas

qual sufoco lento e febril

 um vento morno a ungir-me as veias
a dissecar-me antiteses


um sopro de extrema unção


vem, vem agora sigilosamente
abraça-me ao de leve
morde esta emoção que ainda guardo na pele

bebe a perpetuidade da minha boca

porque do resto há pouco
muito pouco  
ou mesmo quase nada




19/03/2012

Apanha-me o grito



solto mudo o grito
este grito à margem de mim
e do silêncio
um grito seco
 que me perfura as mãos
quando acaricio o vazio

ai se eu pudesse sorrir
ai se eu pudesse chorar
qualquer coisa
que me permitisse
guiar este grito


apanha-o assim 
 se puderes, se quizeres...



se, não...
deixa-o em sufoco
  ancorado no porto da minha alma

                                                                   e ajuda-me a "chorar"






Este frio...



sufoca-me este frio opaco e cinza
esta premente vontade de chorar o nada
este vazio d´olhar

sufoca-me esta paz promíscua
respirada a custo
a ausência d´ autênticidade
nas janelas que se abrem p´la manhã



a primavera tarda em "florir"
 e eu
mergulho em mim
acariciando a lágrima que não verto
olhando as emoções


                       qual despedida
                                          de uma partida sem regresso





18/03/2012

Que mais dizer ?




 desta janela o indiferente Tejo
indiferente
à escrita do poema,
à pena dos meus dedos
comprimidos no duelo das palavras
a desenhar virgulas ocultas
na  prudência de metamorfosear
o que em mim bate em descompasso

na rendição de Domingo
e não mais que isto
 escutando o imprescritivel
ouço-me (TE)
no som tribal do silêncio,
bebido ás escritas
que se não escrevem
nas metáforas simbólicas
e dispares,
perdidas quiçà, no rumor lento de um qualquer violino


 
prenha de musica sem notas
desço a pique teu colo de letras transparentes
que meus lábios decifram
no beijo d´agua, que não damos

solto-me  nos ponteiros do tempo,
alegoria daquele tempo...

e
 falo do silêncio ás minhas margens
da agitação profunda de minhas águas calmas
da textura dos dedos circundantes
amarfanhando o pregão do vento
um vento mudo
que não faz acontecer


ai como me dói este tudo cheio de um nada
anunciado no céu palatino da revogada ansia da minha boca
como me morde este não querer render-me
á lentidão vazia d´imaginar-te apenas


é nestes momentos que regresso ao momento em que nasci:
nua e gente

enquanto a vida continua
quem sabe noutro bairro e noutra cama

                                             quem sabe, se mesmo aqui ao lado




16/03/2012

Sem margem






deixou-me a noite um desabrido cantico
de espaço vazio
frio
ausente
 
uma lava negra
escorrendo
impía
na
 dor
do
tormento


sou vulcão
sem foz, sem leito


almargem de mim
na evocação saudosa
de um momento



desenho de Modigliani


15/03/2012

Ser...



ser no teu voo
gota d´ar
tangente de silêncio
ocaso d´asas negras
brisa de canto
mar de primavera

ser no teu voo
a
 partida
a
chegada
rampa, porto
d´ar e mar

ser no teu voo
o canto do nenúfar
vaga azul
acorde subtil a deslizar
em corpo nu
tangente ao céu


 esperar num qualquer (aero)porto
na prerrogativa de ternura

molécula infinita


numa nota solta...breve enlace


deste meu olhar




Celebro-te!



era madrugada ainda
no mundo virginal do verbo
quando
nesta quietude dúbia de vento
me desvelei à justa causa das nascentes
num gota a gota, trago e gole
no enigma de dizer(te) de cada hora arrebatada
na embriaguez de leite e seiva
estilete, crença e verbo
que tu me és
d´esta sede de beber-te
a ti, água
que me cais, e me unges, em sintonia texto e forma
d´este fogo burilante
que espalho sobre o teu falo imenso e nu
no assombro
no sonho deferido a palco incerto
no tempo esconso de memórias
trazidas d´outros tempos
instinto fértil e hábil
gravado na nudez ocular de minhas íris
a luz, a escuridão
o vaso comunicante
na inclinação do sol rarefeito
presente e ausente
na ambivalência de todas as coisas e causas
inominável quando te soletro
intima, morosa, como me sabes
mesmo na opacidade
da existência salobra dos dias imperfeitos
rasgados aos silêncios lunares
quando te me dou
em holograma de prata…mulher, puta, deusa…


hoje, serei ainda
o verbo a celebrar-te
a soletrar teu nome
na beleza das causas impossíveis
em agremiação matura
de tesão e ternura emancipada


CELEBRO-TE !

deste jeito, assim teu/meu dia
antes que sejamos (uma vez mais), da vida



                                                                    “ o pó, a cinza, o nada ...”






(foto by me)

11/03/2012

Demagogia



talvez seja próprio dos "deuses" a dessimulação das emoções.
eu gosto de deixar fluir as minhas, seja em revoltos mares, seja em calmas planícies...



" metade de um prazer
não é prazer
a nossa alma
precisa estar sobressaltada
para o nosso barro
se sentir viver"
 
 
 
 

04/03/2012

Nostalgia



sacode-me uma profunda nostalgia
deste vazio imenso e silêncioso
é neste infinito mar d´areia
de vagas brandas
e
doces ventos
que mergulho tranquila e nua
na respiração da minha pele




03/03/2012

Noviça




diz-me da bussula que não tenho

e me faz rodopiar nos pontos cardeais

 vã tentativa  d´encontrar
                                                          de t´encontrar


no compasso do silêncio  demorado

conto,  sem saber, bagos d´areia
que suspensos no morno da aurora
escorregam na imperceptibilidade dos meus dedos


rendida á vigilia do verbo
na megalómana evidência da areia
silícios do deserto a retalhar-me a alma

regresso
mendiga e de pele nua

                                  um (a) ocaso de sonho nos teus braços
                                                                                   ... meu mel marfim


d´alma rodopiando sobre o sonho gasto
tentativa d´alcançar o teu poente

rendo-me exausta ao sublime vento d´água

hiberno nas conchas da espera



                                                         surruro, apelo, lágrima... minha vigília






nascente é a hora em que chegas
                                                     noviça é (me) sempre a hora e a chegada






02/03/2012

Fogo




o fogo a dilatar  a sede
 emergir
em canto vasto
 colcheia
 ostra
 sal e espuma
 toada breve e agridoce
tão breve
que na refutação das amplitudes oceânicas
é o pó d´alva 
secreta habitação



habitação
colada no silêncio alastrado
de um convés mareante
onde navios impossíveis
repousam os olhos


  imensos os meus olhos
neste desenhar gaivotas nos teus (olhos) 


 
que de (tão) incrédulos
mergulham no detalhe circunscrito do fogo dos nossos  sorrisos



....e não se afastam dos meus...