26/02/2012


na montanha da minha alma
habitam sois e planetas
correm rios
temperadas monções, rebeldes ventos
ciclicos gemidos d´agua e luas breves
bagos de romã rolando á solta
nos fios do meu sangue,
navegam auroras
barcos sem rumo e suspensas sensações
frémitos em espera...viagens por fazer
a tua...a minha...
balança-me a espera
sulca (me)
respira  as ramagens do meu corpo
sussura em mim a intemporalidade das  brisas  
e dos gemidos breves
senta os teus lábios no precipicio da minha boca
junta-te no meu olhar
escala-me os sentidos
e serei
o abandono, a montanha sulcada no desejo
o ar puro, a musica do vento, o mel da baga
o leve sussurar de uma cascata,
a perdida onda na orla do teu rosto...


Sopro quente...



ofereço-te este pedaço de sol
que visa aquecer teu corpo
fluidificar o teu sangue
chegar à tua boca


à fluidez do teu sorriso....


....e assim, em sopro doce e quente, perder-me na maciez do teu beijo...



Particula(s)


fosse eu a particula dívina
e lamberia
o nectar do teu verbo
as preposições dos dias
o hálito morno das suposições
as consoantes que compõem o teu nome
as mãos da tua escrita
lamberia a própria ascensão
num ritual de luz
da raiz ao cume
peregrinando as memórias
 gravadas pele

mas
sou apenas o silêncio
que acalentado a espera
de uma ressurreição lenta
vai em cada consoante
penetrando a bruma
 que veladamente
sucumbe á própria incógnita




                                                       quem dera escrever nas veias
                                  as vogais
 vogais desse desejo





19/02/2012

Ler-te


nesta penumbra quente do meu quarto
construo em triangulo
as formas viris
dum sonho
que querendo
me não pertence
e
sinto
no poço ausente do teu olhar
que há uma essência vitrea de lua
uma luz inclinada no vértice da tua boca
que o vento dispersa 
retalhando assim o vocábulo da tua voz

quem dera ensolarar-te a alma
trazer-te á tona de mim
na essência desprotegida das consoantes
nuas de ti
livres nos teus lábios e na saliva
apenas bordadas na orla branca do teu ser
ler-te na decifração das cores

mas
molham-se as fusas, as musas, as colcheias
os códigos
brandos
das silabas
que ignorando as palavras
se rasgam em mil pedaços
pequenos fragmentos de ti colados no vento
decifráveis apenas
 na tinta de sangue pingada do tempo

***
e
tu indiferente 
vais macerando a maresia
mastigando essa paz
e na indiferença
carregando o silêncioso azul
da evasão



...quem dera poder tecer num qualquer vértice da tua voz, uma qualquer luz
e ler-te na sombra dos lábios, que fosse apenas uma breve silaba...



 

"...il chevaucha un chérubin et vola,
il plana sur les ailes du vent."


18/02/2012

Essa arte



ensina-me
 essa arte de ser silêncio
a entender nos búzios
o teu coração de (a)mar
e na dor da ausência
ser a flor de sal
germinada na brandura da tua saliva


ensina-me
a vaguear tranquila
neste deserto imenso
vaga d´areia, maná distante
desse teu ausente oásis


ensina-me
a ser-te devagar
lava escorrida á foz dos teus montes
desaguando lenta e
indiferente à foz do teu olhar
segreda-me
essa mágica fórmula
de te não esperar
assim tão desnuda na luxúria

ensina-me
como se findam as esperas
como se passa do entardecer á noite
sem sentir a intranquilidade dessa maré tão viva


ensina-me
o esgrimir esta ânsia
 de (te) querer em longas noites
na melodia quente do pecado
na pausa
sussurrante dos teus abraços


ensina-me
a fluir desta vontade
 de m´aninhar 
de morrer e renascer 
insanamente entregue
ao ondulante desejo
desse teu olhar



14/02/2012

Silênciosamente escrito

"Afinal,só as criaturas
que nunca escreveram Cartas de amor
É que são ridículas…"



By Fernando Pessoa



quisesse eu silênciar-me
e logo a pele emitiria
o grito que sustento em minhas mãos

de negro e luz te escrevo
 breve momento este
roubado á madrugada do silêncio
e ao tumulto dos sentidos

rimam as vogais
na imperceptíbilidade do suspiro
colado no ridiculo da negação

nesta névoa suspensa
eu vou-te amando assim
nestes dias tão só meus 
 onde os sentidos se envolvem no despudor
e te suplicam em pedaços d´amor
peregrinos na franja da tua pele suada
descalços no trilho
nas lacunas de um tempo
que nos habita
de forma subtil 
sussurrante e visceral


és-me afinal
                                             o texto
                                                      o poema
                                                                  a foto
                                                                          a boca
                                                                                   o beijo

tudo isto e ainda muito mais

mas vou-me cobrindo dia e noite...vestal , velada
na profunda enbriaguez desta arte de

                                te ter de mansinho...
no limbo do silêncio, na seda morna do meu peito,
na aorta do verbo, na iris da manhã...



                                                      tão de mansinho,
tão mansinho...
                                                                                         

                                             para que me não ouças amar




12/02/2012

Tenho em mim o "frio"




são frios os dias
geladas as esquinas da minha boca
quando, velada na ausência
me acanto néscia no pensar

cruéis os deuses
que me roubam à clareza e ao sossego

tirito no degelo da noite inóspita
sinto no peito o rumor
ausente da tua pele
desenho com vitreos de gelo
a luz ausente, as folhas níveis do desejo

é neste rumor
apenso nas nervuras do meu corpo
que decanto a herança
destes dias longos d´ausência
...a tua ausência

e digo-te, vezes sem conta
sem que o saibas
que me és a embriaguez de leite
na crença do verbo
mina, onde nasce esta sede imensa
de beber-te gota a gota
vagarosamente
no deleite silêncioso da saudade

Esta saudade fria que faz de mim
sinónimo de um texto inacabado
uma enzima pungente
uma lágrima pérola
que escorrendo do canto dos meus olhos
se aloja na sede dos meus lábios

lágrima que vou sorvendo neste tempo longo,
sublimando o vazio de teu espaço
colado no frio risivel da espera


sei-me silênciosamente ardente
 no silêncio cristalino e frio...
...que não sendo palavras,  são afinal as vogais, consoante(s),  minhas noites...



04/02/2012

Perdida...



  perdida
                                  perdida de mim
                              perdida de ti
  perdida



 
  não quero porto
         nem abrigo
        nem ancora


quero marear á deriva
no timbre da tua voz


mergulhar nessa luz negra
  meu ópio
reflexo exuberante do teu olhar


                                                   
                           e nela me afundar...




Declaro...




são as tuas mãos
o território oficial do meu desejo


a tua boca
a orla do caminho do desejo


o teu peito
o imenso areal onde espraio a minha insânia


o teu sexo
o hangar dos meus voos



sob o teu olhar
desprendo-me desta vida...


Indiferente...




quero morrer ignorante
rasgando o diário dos teus dias

perder o sentido que têm os simbolos
enrolados nos dedos

passeio-me na indiferença
desse outro pedaço de uma vida




 apenas o rio me detem
quando etérea te espero na foz