28/01/2012

Sopro de frio




ajoelho-me neste espaço
curvada
ao vazio do nada
onde barcos naufragados
emprestam á espuma branca
uma musica miserável e riscada
ouço-me nos escombros
das marés vazias
 na minha pele há pássaros que não cantam
e o sol já não aquece a espera
 a madeira apodrece na humidade
do desencanto
são dias de fome e sede
que emprenham as noites
mortas na suplica ofegante
do meu olhar

e o dia tarda

tardam as folhas escritas
o sangue coagula nas veias inchadas de espera
queimando a chuva
a minha boca tem a forma do abismo
engolindo a naúsea neste porto abandonado

solto um fumo alado
em sinal e suplica
á luz desse farol abandonado
onde silêncios mastigam a areia molhada


tardam os dizeres
os beijos
os cheiros
as células
os sopros
os pregões da furia desse querer

as horas batem em vão
e tudo tarda

e eu

eu, vou morrendo de frio... 



15/01/2012

Momentos...




são baças as manhãs
cortante o frio
há no ar o despudor do desconforto
a vestir-me os sentidos
a lamber-me as veias
amarfanhando a sombra
d´este pedaço de mim...
                                                      ... á deriva

toco o som das palavras
acaricio o grito que sustenho na voz
e o sol não vem

já nada sei de mim de ti
nem deste ausente verbo
que não conjugo no presente

apenas escrevo as vogais nas claves
deste sol...que tarda
ajustando as consoantes na bruma das minhas ancas
volvidos ao segredo das minhas mãos
aos suspiros das noites vazias
caladas...
onfe vou colando na pele

                                                             o cheiro da tua voz

...

talvez assim
haja no silêncio a tua sombra
o breve sulco do pó
e
e por entre os meus dedos
haja o gemido escorrido
do mosto das amoras
                           macerado á força
   

                                                 
                                                    ... de te beijar no vazio



13/01/2012

No teu monte





há no cimo do monte
teu monte
a gota cristalina
nectar d´urze
mel de ti

há no cimo do monte
teu monte
o quente de verão
o gemido da palavra
a sede no sufoco
o suspiro fulminante do desejo

há no cimo do monte
teu monte
o caminho...
a descida, a subida
o vai e vem 
sucalcos...a boca entreaberta 
vou

qual romaria

doce e vagarosamente
no percurso do templo 
o teu templo
e oro, oro em prazer
ao prazer
em suplica e prece

sorvo a luz rouca da infinitude, o auge... o momento
soltam-se gemidos
a abissal devolução á (nossa)loucura

estou agora na descida de ti
e na subida de teu monte
 e sorvo de ti 
a agonia
a lava, o sal, o mel...

alimento profano da minha boca




...as palavras já me não bastam...




01/01/2012

Trago-te em mim



estás aqui em mim
neste  primeiro dia
porque não quero que seja d´outra forma 

é meu o tempo
e a liberdade de te sentir assim...em mim

pouco importa a consumação
do sonho
se estás, na humildade desnuda das coisas simples

no canto do mar
no sopro da brisa
no feitiço da espuma
no calor do sol
no negro da lua
no romance do céu
no vermelho oculto
na minha pele
nos meus sentidos
no arrepio da garganta
na lágrima do meu sorriso

e, bem sabes, bem sabes tu, que não desisto de te ter
na concha do meu abraço
na polpa carnuda dos meus dedos

dedos com que te desenho no pó da minha carne...aqui

estás em mim, porque não quero, não me permito
nem ouso sequer equacionar
ter-te d´outra forma

trago-te
tenho-te
e assim te celebro em mim...

Amor
Amante
Adoração



                         uma Aleluia, alfin...