30/12/2011

Desa(sossego)




sente o quanto imperioso é
voltares á minha pele
misturares-me no teu sopro ardente
morreres devagar na minha boca

 longas as noite
árduos os dias
rodopiam em eclipses d´ausência e demora
enfeitam-se-me os olhos
de chamas, gelo e neve
queima-se a minha pele macia

sente
sente o quanto imperioso é
trazer-te de volta á minha carne
ao espiral tumultuoso e demoniaco
ao vértice da chuva prateada e latejante


acaricio a carne
solto um suspiro inócuo e transparente
sobra-me este frio, transfiguradamente cru
amarfanhado neste lençol de espera



imperativo
acalmares o desassossego desta ausência...



28/12/2011

Promiscua(mente)





sou o "sacrificio"
o ritual d´oferenda ao teu desejo

toma-me
deitada em bomos negro e flamejante
volúvel aos acordes dos sentidos
despida d´alma e de roupagens
em pele branca, crua e perfumada

sente-me
nas contorsões profanas do gemido
no desmaio d´incenso quando te respiro
na embriaguez diáfana
quando a minha lingua te invade o pulpito
e te percorre em romaria impudica e perniciosamente
os caminhos do prazer e d´agonia

toma-me
no destempero e na deriva
aporta-me á tua boca
unta-me de sal e saliva
morde-me em sufoco esta sofreguidão

sente-me
como deslizo no teu peito
pra sorver do teu cálice de fogo os paulatinos cristais
que tombam oferecidos á minha boca

 
toma-me 
a cabeça entre as tuas mãos 
conduz-me na vertigem fóbica 
na emulação vulcânica
no rasto do teu magma incandescente
sente-me
profanamente comungando o destempero
a insanidade 
 teu prazer e dor

 
sente
como
te acaricio o urro demoniaco
sente
como
 te apaziguo na libertação

sente
como
se respira a luxuria
 
 
sente-me
e
toma-me
de novo
usa-me
profana-me
invade-me

ergue-me na redenção do sangue pulsante 
na oblação da carne quente
oferece-me e faz-me fenecer no ópio da razão







Avidez





falo-te
desta lei racional
que me repele e aproxima
desta casa que não dorme á noite
deste frio que me açoita á tua ausência
dos meus lençois vazios
onde me deito faminta mas sem pressa
pra me alongar na nudez telúrica de meu ventre

digo-te
de como os meus olhos se esgueiram
nume pressa vagarosa de saber de ti
procurando na demora e na vertigem o teu sinal

falo-te
de como se tomam de ti os meus dias
e descalça percorro as ondas do teu corpo mareante
 sinto-te pleno na minha boca
insano na prece do instante
audaz no febril torpor ao abraço das minhas pernas
...
sou(te) o espiral e sopro truculento nas furnas da insânia
a promessa
fundida no sortilégio do desejo

digo-te
que me sinto
 trepadeira justaposta á parede do teu magnifico peito

falo-te
deste nosso riso beijado
diluido em lábios aguareláveis
 entreabertos pra engolir  avidez e loucura


 
digo-te
falo-te
desta liturgia d´amar

                               e
do quanto me sinto ávida por respirar-te...





25/12/2011

Soltos de "nós" ....



caminho em lirismos caóticos de espuma branca
roubo-os á maresia do teu rosto

 vou suspirando o teu  olhar
perdida
abraço-me em concha fechada
ás silabas do teu nome
e em surdo gemido te grito

deixa-me hoje abraçar-te
tocar-te ...na doçura
de um amor que omito e canto e choro

deixa desembaraçar-me do sargaço
onde calo este segredo de te querer
de querer mais além,
mais além, do suspiro vascular
de sangue humido e fervente
mais além da fome e sede
das nossas bocas sugadas e gemidas
na loucura da saliva fermentada

deixa-me dizer-te
o quanto te sonho
em rituais idilicos de lua cheia
em beirais apaixonados 

na esperança de ter por um dia
teu peito aberto e nu de medo
 tua alma fundida no sorriso da minha


por aí...numa qualquer arriba ou jardim
publico, privado, tanto faz...
basta-me sermos cumplices na brandura do alfazema
mãos dadas no perfume do silêncio
sermos
 momento feito de nós, sem nós
tu e eu


momento pr´além da porta entreaberta
da cama desfeita
do meu lenço solto na calçada

um momento apenas
sentados na leveza do ar
roubando
 á melodia da lira
o sabor da fruta e do mel


poisa as tuas mãos na esquina dos meus ombros
agora
afaga este gosto d´amar



                                                            cede-te ao momento
                                                            roubado ao medo d´ancorar....



05/12/2011

Segredos





burilados no silêncio dos lábios
estão os segredos
este nosso portal de paraíso

sou-te como a serra ao "Guincho"
corcovada e resilente no sopé

sou-te um olhar doce de fogo e fé
o gemido de noite lisa, entre margens
lençol d´agua e sonho nua

sou-te traqueia e pulmões
avidez de sopro brando

o sopro da boca á tua boca
a tradução do tempo quente e áfono
no sussurro das mãos

ah essas mãos
as tuas mãos de cumulo-nimbo

 que anunciam ao meu corpo
a chuva quente
no pingo ácido da loucura
a sonora trovoada o ribombar das nuvens que se adensam 
em descida...

 a contorsão volátil 
...a súbida... 



                                                              e assim peregrinamos... 
neste louco-nosso vai e vem 
rendilhado de segredos....