30/10/2011

Flor d´Amora



d´amora é o dívino mel da tua boca
e dali, o vaguear das sensações
o cheiro do abraço e do afago
leve, entrelaçado
na brandura de uma noite
hirta folha d´um poema

abraço-te, ágil salto no abraço
segredo-te felina
o sabor d´amora
***
quando me dobras a cintura
e te debruças no vortice do meu peito
profanando o fogo alado do meu corpo
revolto e em espiral
morro em cada inspiração
rendida no teu sopro
***
agora
neste rio inquieto de lembranças
sou a ausência
o celibato d´alma
sem hoje
sem amanhã
assim...
flor d´amora
na espera da maceração






25/10/2011

Teu cheiro arável





morre na terra o sulco
da estagnação do pó
e no renascer
o cheiro solto do molhado
 o lençol serenamente estendido
núbil e fresco 
amante
o cheiro
esse cheiro da terra
os cheiros
esse cheiro do teu corpo

o do teu corpo
esse cheiro deferido ao palco incerto
onde me represento
em folhas outonais
caídas p´la inquietação pecaminosa
deste vento
que me toma em cor
e tece á fala fria da lira
um anel de fogo e prata

o cheiro, esse teu cheiro
o sigilo do meu laico sorriso
rendido ao sonho
que ornamenta
as minhas preces
neste interregno nu de ti

o cheiro, esse teu cheiro
sulcado na terra arável do teu corpo
o teu cheiro
o prelúdio outonal do meu desejo
onde me ínfimo
 rendida ao limbo da ausência
á sede da garganta
ao vómito da espera

o cheiro
esse teu cheiro meu
lava absintica
que me rouba a sanidade
 perfume libidinoso
principio elementar do meu olfacto
do meu instinto arável
onda em orla  desta praia
onde me estendo nua
entregue á aragem
apaziguadora
da espera 
o cheiro
esse teu cheiro d´homem
cantico quente
diáfana saliva
sopro doce, morte inspirada
ode onde renasço






15/10/2011

Volátil





navega-me no corpo
o contorno da tua mão
a sede da tua boca
o suspiro do teu sangue

volatilizo-me
quando me destronas a razão
e insanamente me aqueces
a vertigem



11/10/2011

O teu hálito



pela noite dentro
roubando-me á quietude o teu hálito chega
dobra-me o dorso
acaricia-me o peito
desce á  laringe
introduz-se nas minhas veias
e me transforma num fogo
incandescente
renovador
escravo
 
 
lentamente se vai liquidificado
 gotas quentes
luxuriantes
 escorrendo de mim
 qual romaria
e prece
 
indiferentes ao meu respirar
vão sulcando ávidas
as minhas pernas
lambendo-me o sabor

 quase sem me dar conta
sou
a pele que repousa e arrefece
no leito regadio
almargem do teu magma




10/10/2011

Raiva...




é de raiva esta saliva
que me seca a boca
me entope a garganta
cuspindo o fel
do teu pedido

esmaga-me a ideia de me dar
ao invés de te dar
o soluço
o grito
o espasmo
o gozo
esse gozo que não dominas
e te mergulha no mais profundo delirio
em boca serrada
no embalo das tuas pernas trémulas

quisera eu há pouco
esmagar-te ao pedido
ao tenebroso gozo de pensar-te
agonizante
na luxuria que te não pertence
no gemido que te não ofereço
no desejo que não é o teu
na carne que treme e sua 
e te não pertence

serpenteia agora
na ideia do que te não sou
na preversa imagem
do teu inferno delirante
cospe o fogo que adivinhas
na partilha que te não faço


quem dera
apoderar-me agora
por segundos que fosse
dessa tua fria sombra
p´ra concluir afinal
que a tua mão apenas o calor procura



06/10/2011

De partida...





estou em debanda
 desta febre que me esmaga
deste temporal quieto
que me assola
desta sombra pungente
que me arde


chora-me o sorriso
se te aprouver sentir
que to dei em noite cheia
num remoinho de loucura
sorvido ao espiral da morte







Poema sem rima




quanto mais vagueio
mais me enleio
nesta teia subtil
de ousados pensamentos

que quererei eu além
de me deixar naufragar
nesta espuma de vento norte
que acabará inevitávelmente
por me arrancar ao sossego

num mar sem porto
num oceano longínquo
serei talvez o nada
ou o papel em verso
 sem rima
que tu nunca lerás