30/09/2011

Entrega-te







entrega-te aos  voos
pois amanhã as borboletas
poderão estar a ser dissecadas
num qualquer laboratório
e as fantasias
fenecerão pálidamente numa qualquer lupa
dos sorrisos apenas restará
o ensaio intrépido
de uma lente
aumentando estupidamente 
 o que ficou por sentir


entrega-te aos  voos
porque deles apenas quero as tuas asas
enrolando-me
no que de melhor por lá albergas
do teu fogo apenas
a factualidade do calor
e o sorriso da tua alma

do teu corpo o sangue e perfume
 lambido no tenro hálito do gozo
em secreta magnanimidade
a descoberta fantasiosa
au-delà
do lado escuro da lua






27/09/2011

Plágio


envolve-me a tua carne
superficial e quebradiça
que te molda os ossos

do teu cálice quente e hirto
bebo o sal, a cana doce
sorvo da tua lingua
 o bafo rolado
a saliva
que sulca a tua face
crua de papiro

vindimamo-nos na ansia
no roçar dos dedos
 e há fogo de queima
 terra inflamada
cratera aberta ao aguilhão de besta

ardem
os peitos
as ancas
as pernas
os nós da pele 
os pelos
dissipa-se
a voz 

nas labaredas mordidas
cumplices adejam os sorrisos
 puro gozo
que arrecadamos nos cestos da colheita

 na audácia das linguas
soletram-se os ais
intimos na poalha da fala

morremos por setença ditada
 destemperada e mordida 
lambida na pubis quente da saliva


somos
a tontura embriagada
o mergulho no corpo 
o suor d´alma nervurada
um  ir de vir
  vir em frenética chegada
no latejante e silêncioso
 grito do naufrágio


extase roubado ao arrepio
homem, mulher
osmose fluidica



***

escorre indiferente o suor
nos vidros baços desse tempo
e
 um pássaro negro ensombra
o primeiro raio de sol




25/09/2011

Indizível






nos madrigais de mim
em tempo de primícias
transporto-te no ar do vento
vou decifrando
no limbo de um sol antigo
aquilo que me és

em tempo de primícias
sobre os fios de água
na aurora que balouça sobre mim
açoito-me  no movimento
diaristico da minha sede
de ti

coloco nela o peito
o corpo
a alma


nesses indizíveis dias 
nihil obstat
incensam-se-me os  olhos
abismáticos
cerosos

a luz
disseca-me
a sede
a fome
de ti

e assim
me vou reconstruindo na água
deixando
 estelhaços  de vidro a seus pés
num silêncio vertiginoso
 grito de maré sem voz


somos, no mar da vida,
diferentes e tão iguais

tu me és luz na espessura plural
e eu te sou
tão-só
a sintese, a soma subtraída de
tudo
a sombra paciente, boreal e alumínica

indelével tinta nesta escorrida
folha de papel










18/09/2011

Néscio sentir este ...



estou na curva temporal
no aroma da crosta do pão
no alinhamento do fogo
no bafo do beijo

o sal decota-me os olhos
sacode o ventre
um néscio sentir 
 arremessa-me num deserto
de  mar imenso
e frio


reflectida na continuidade
dos dias
rasgo no espelho
o  marasmo domingueiro

talvez tenha de me consumir diabólica
no fogo-fátuo
antes que o paraíso redesenhe
o mundo em arco
e flecha

                                  redondo e rotundo


                               e um Deus desmemoriado
                          se lembre de me relembrar da cumplicidade dos homens e das aves




foto tirada da net

15/09/2011

Abreg, Ad e Habra



seja
 apelo
cura
 réplica
 amuleto
predestinação
ou
 magia


suba em mim como cura
ou desça nas entranhas ao "pecado"



colho-a no vento norte

solto-a 
da
boca


qual amuleto
desventrando
a palavra





14/09/2011

Alba(mente)

(foto by Sara - 7,29h de 14/09/11)
 


desperta-me  um renascimento
na alba transformadora

o sorriso
cumplice
amplia a prespectiva
da minha janela


irrompe o astro
 aquece o frio tédio
em que se  transformou
a noite
que te não sonhei


repara

 são brancas as  flores

sente

como nos meus olhos
adormece a fragilidade da espera




13/09/2011

Tão Cheia




de Deidade a mim
o clamor
o hálito alquimico
a cumplicidade
o fluxo e refluxo
desta secreta maré

 na avidez no desejo
cola a humidade do sopro
a ventura
a aventura
a intensidade

a busca humana 
do extraordinário transcendente
na reflexão da luz
na fase intensa da carne

profético sonho...

diáfana intuição
negro vazio 
 recepctividade
força
segredo
luz de mim em reflexão

lua
lua

almeja-me o sentido
esmagado no dorso cumplice da insónia
neste fogo fecundo
nesta
água e sangue
que me faz
mulher





foto by sara (deserto)

O mosto das "ruelas"




morde-me a imobilidade silênciosa
desta minha cidade
um turpor doentio
adivinhado na alma das ruelas
lábios babados d´inércia

na apneia do vento
deslizam fotos gastas
desfocadas
radiografias d´ossos em vertigem

imagens
segredos
                                               desesperos
 bordados no tecido do caos

sigo o rasto do sangue
em voo de borboleta sulfurica
esmago entre os dedos
o pólen da romã
voo colada ao mosto
reflectida num espelho desfocado





foto:retirada da net

Interdito...

(Interdito de Graça Morais)


está interdito
o sonho
o pensamento
a escrita
o verbo
o sentir
o querer
as invocações
construidas no nada
paulatinamente
 

estou interdita a todas as formas
de alegorias vãs
suposições argumentadas
escritas retalhadas
musicas conotadas
saudades obsoletas

 
 quero-me fechada
na maciez de mim mesma
no temperado fulgor
da descodificação total
 
sentir-me naufragar
neste azul gélido de renúncia
 

morre-me o corpo aos pedaços
os meus olhos  caiem
 no vazio
silênciado
da boca em quietude

na serenidade nua
percorro-me labirinticamente
ponta a ponta
acariciando
este
 inexplicável
desassossego
de mim mesma




11/09/2011

Masturbação do frio....



trespassa-me uma luz
caótica
intemporal
fria
céptica

uma catarse metálica
invade-me os sentidos
corta-me o ar


descubro-me
a caminho de mim
em marcha 
lenta
ousada
e
 péptica
rumo
à 
 masturbação do frio


foto retirada da net



Caos...




medito, debruçada,dormente
no puzle que não construo
descodifico a peça
a ferrugem, o traço, o momento
 rodopiam  ventos
voam pedaços
de sal e de bocas
línguas
projectadas e retidas
contradição, caos, confusão
e  
na mão a bilis
amargo de vazio verde...profundo

ai quem me dera descer
num poço
 em espiral sem memórias
contemplar de baixo
a gargalhada louca
da mente em rodopio
as peças rasgadas
além mim,nas margens
do esquecimento.

e depois, depois elevar-me
em caminho calmo
d´asas de pássaro
fazer-me trespassar, tatuar
p´lo  silêncio dos ventos

a minha carne está morta 
tem o cheiro do vazio
o ocre da ausência
as veias secas de frio 

 proclamo urgente
a subida,
a reeinvenção
o rodopio quente
dissolvente
tangente
à descrição do apenas...

....




foto: retirada da net

10/09/2011

Particulas d´incenso....




acaricio
o sorriso
a garganta
o peito
o gemido erecto
a gota
de suor inseminada
p´lo musgo
do teu gozo
e sal
de boca

***
paulatinamente
mergulho
no volátil odor d´incenso
da minha mão





foto:minha mão

Mácula ...



escorre do beijo
a febre
um gemido sulcado
arando o corpo

neste
 voo dos sentidos
repousa a fala
breve 
isomorfismo  de sangue
no conceito predicável
de macular saliva






Photo tirada da net

05/09/2011

Sopro e carne





No êmbolo me afundo,
 rasgo a carne.

Na insana descida
 o gemido profano,
o soluço rouco
este sopro
visceral.


Derretida na têmpera
ardente dos infernos
 a lava escorre inócua
do meu corpo.
...
agora a prostração
dorme 
no vazio do aço.




(um laço vermelho jaz no chão)


foto by sara