28/03/2013

A dança




ouço a tua musica
entrando por entre as portas do silêncio
um cálido arrepio no vibrar dos violinos
que gira ávido e lúcido na surpresa

é suave o percurso
é deleite
e eu vou borboleteando em romaria nessa pauta

perscruto uma clave de sol no odor do caos
e sinto-a emergir como um mágico refrão

há mosto perfumado
um odor extasiante
mastigando todo o sentido do caminho
vem
vem agora
aperta a subtileza com que liberto o gemido

dança comigo
 uma dança quente
colhe-me em fogo no abraço
como se fossemos dois amantes deslumbrados


e deixa escorrer a tua musica pla minha boca

                                                    lambe esta vertigem  
                        
porque de saliva e sonho é o sal que me desperta 



26/03/2013

Meus dedos


Vila Nova de Gaia (hoje)

o vento rasga-me os fios do cabelo
 a chuva chora sobre esta cicatriz
amolecem traços de luz
 que persistentemente detenho da memória

frágil e patética
 passo meus dedos no sulco vincado da pele

ah como sinto ainda o sonho e o sangue
 enchendo cada traço


que quererá afinal este sentir de mim? 





(foto minha)

23/03/2013

Séquito de colcheias




choram as palavras
fogem plos espirais do fogo
                                     são fumo
enquanto metáforas agonizam no inferno da cinza
                             a ode da indiferença

 
soltam-se das cordas de todos os violinos
musicas terminais
são o séquito profundo das colcheias 
                                                      aos segredos do nada


não é arte não isto que sinto hoje na pele
é o vogal mistério
que arrasta sem pejo
uma bruma seca no sal da recusa


a solene e dolorosa derrocada
esmagando impiedosamente
 o caos silábico no alfabeto da escrita



que seja então feito de cor o meu sentido... 







                                                                                "temos um talento doloroso e obscuro
                                                                               construímos um lugar de silêncio
                                                                                 de paixão"



                                                                                          



22/03/2013

Revirar as voltas




voltas e reviravoltas
uma inquietude feroz
capaz de devorar um rio
da nascente à foz

que maldição
devoraria esta condição?
uma magia utópica talvez
ou um arrepio tridimensional
pra mastigar este desassossego tão infernal

voam as virtudes plos espirais da pujante loucura
sacodem-se frenéticas todas as memórias

e o fado
                   esse
 canta-se hoje
               sem tréguas
 nas coxas vis do desprezo






21/03/2013

Lugar de Poesia


(Ilha de S.Miguel)

recolho-me entre o céu e o mar
no patamar da solidão abençoada
deixo aos dedos o envolvimento das palavras
enquanto o sangue jorra na alma
a desconcertante métrica dos sentidos

 um ritual solene de poentes

e há no  fresco acordar do vesuvius
silabas convertidas em metáforas de noites quentes
a fazer  acontecer palavras
no limbo de cada madrugada


é a nascente que vou parindo o nome e o sentido do poema





19/03/2013

Persõna

(Fernando Pessoa)




 lentamente fui tirando a máscara
e na suavidade dos meus enganos
achei-me inteira(mente) nua

 não sei agora que te poderei oferecer
talvez...
o profundo silêncio do meu retrato





(fotos minhas)

17/03/2013

Escrito visionário...


(escrito de Fernando Pessoa)

em papel de linhas e caminhos foi escrito
e tu entraste nele
tinhas forma e roupagens
                                                    (que despi)
e tinhas odor, som, vida, forma e sal
uma sequência infernal de querubim
na entrega ao pecado original
até o contorno da tua  boca era feito pra lamber
com beijos mordidos e intemporais
                                                  (sem principio sem fim)

estão desbotadas algumas das letras que habitam lá
baba de mel, pingos de leite e suor animal
tornam essa escrita mais leve e a sua essência mais real

ele grita e sorri
                                      de ti, de mim
 orgulho na concepção dessa gloriosa predestinação
 geme ainda ao recordar o feitiço da concretização
e no labirinto silêncioso da exactidão
homenagia todas as caminhadas feitas na maldita sedução
nesse arrebatamento roubado ao gozo
e alimentado na mais completa preversão

que visionária dimensão a desse escrito pois então
antecipou loucura, luxuria, promiscuidade e evasão
baptizou de sofreguidão a saliva quente que se lambeu na conexão
 relembrou muita loucura de uma outra encarnação

sabia até do jeito de colocar as mãos na libertação
sabia dos gritos encarcerados na pele
sabia de cor o idioma idiondo do inferno insano do sangue 
conhecia os memoriais da devassa exaltação


agora releio-o e ouço-o
ouço ainda o que há em mim e o que sinto
sei que não há tempo não
                                                 há escritos de exactidão 





(foto minha)